Cheers, o envelhecimento e a procura pelo lugar onde todos sabem seu nome

O tempo é um deus iracundo com o qual não se pode lutar, muito menos vencer. Ele quer te ver de joelhos no chão, de tanto apanhar e, finalmente um dia, irá te derrotar. Mas, até este dia, muita água rola embaixo da ponte.

Exemplifico: uma série de desventuras amorosas nos atribula o espírito. Problemas com dinheiro tiram o sono. Brigas com a família colocam sua paz em segundo plano. Seus filhos vão mal no colégio. Os amigos lhe abandonam. O chefe quer aquele relatório pra ontem. Seu colesterol está alto. Algumas rugas incômodas começam a marcar seu rosto. O veterinário do pet e o dentista do marido custam os olhos da cara.

cheers-05Mais tarde, um namoro despretensioso torna-se o amor de uma vida inteira. Uma reserva financeira, poupada com tempo e experiência, fazem seu bolo de dinheiro crescer no banco. Seus pais aprendem que não podem mais se meter nas suas escolhas. Os filhos fazem uma boa universidade e descobrem um propósito. Seus amigos são poucos, mas são fiéis. Você agora é o chefe. Sua alimentação e seus indicadores de saúde estão melhores a cada dia. Os cabelos prateados lhe dão um certo charme nostálgico. Pagar o veterinário, o dentista, restaurantes, viagens e o que mais for preciso não é problema – afinal, você aprendeu a poupar quando era mais jovem.

Este é o mar do tempo, com suas ondas assustadoras no início, que mais parecem um enorme maremoto, do qual não sairemos ilesos. Grandes tormentas se aproximam, você está desorientado e nenhuma terra é visível. Depois de quase se afogar, aprendemos a dar algumas braçadas e, quem sabe, conseguimos até mesmo ficar de pé em cima da prancha por alguns instantes. Por fim, após muitos tombos, dificuldades e quedas recorrentes, você consegue nadar como um peixe e surfa como um profissional. As ondas grandes já não assustam, o céu está limpo e você escolheu um rumo entre as várias ilhas próximas.

Pausa para os comerciais. A série de televisão Cheers, apresentada na rede norte-americana NBC entre 1982 e 1993, certamente durou muito tempo. Foram 11 temporadas de personagens que imitavam a vida real em um ambiente confinado, numa espécie de lugar fora do tempo. O tempo foi, sobretudo, desafiado. Você pode nos vencer, Senhor Tempo, mas não pode nos tirar a alegria, a vivacidade e a esperança. Houve muitas ondas que afetaram relacionamentos e amizades. Porém, no fim, existia a intuição de que ainda melhor que desafiar o tempo é encontrar um local escondido dele. Este local era o Bar Cheers (‘Um brinde’, em inglês). Ficava em Boston, mas poderia ser em qualquer cidade do mundo.

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Em seus 270 episódios, Cheers era uma obra de arte que imitava a vida: ciclos de amargura e desgostos eram sublimados no fundo de um copo de cerveja, tornando-se em seguida a fonte de ironia e sarcasmo que tanto esperamos do mundo real. O solteirão e dono do bar, Sam Malone (Ted Danson), após abandonar a carreira de baseball, tinha uma preocupação excessiva com seu cabelo. Diane Chambers (Shelley Long) era seu par romântico.

Após rejeitar Sam no início, Diane finalmente engatou um romance rebuscado com ele para, logo depois, romperem tudo. Mas depois Diane quis novamente a companhia de Sam, que passou a rejeita-la. Então Diane Chambers começou um namoro com o psiquiatra Frasier Crane (Kelsey Grammer) que, por sua vez, ganharia um spin-off próprio após o final de Cheers. Diane finalmente deixou o programa para dar lugar à nova gerente do bar, a charmosa Rebecca Howe (Kirstie Alley), que passou a dar as cartas no cenário, e com a qual Sam Malone passou a flertar. O ex-namorado de Diane, Dr. Frasier, depois de levar um fora dela no altar, casou-se com a doutora Lillith Sternin (Bebe Neuwirth), teve um filho, divorciou-se e mudou para Seattle.

NUP_102344_0009E qual boteco fora do tempo e do espaço não tem seus personagens folclóricos, daqueles que batem ponto em todos os episódios? O Bar Cheers tinha seus frequentadores assíduos, tais como o contador autônomo Norm Peterson (George Wendt), que era sempre recebido pelos presentes com o bordão “Norm!”  e Cliff Clavin (John Ratzenberger), um carteiro sabe-tudo. Além deles, davam o ar de sua graça no ambiente descontraído a mal-humorada garçonete Carla Tortelli (Rhea Perlman), o atendente Coach (Nicholas Colasanto), ex-técnico de Sam Malone no baseball – que a fúria do tempo tratou de levar para as longínquas profundezas do sono eterno – e o garoto do interior Woody Boyd (Woody Harrelson), que ganhou um emprego em Cheers após a morte de Coach.

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Tudo acontecia neste cenário de confinamento humano, palco ao mesmo tempo do burlesco e do dantesco da vida cotidiana de pessoas aparentemente normais para sua época e seu espaço. Porém, o lado cômico também tem seu lado trágico. Enquanto muitos se divertem apenas observando o vai e vem de personas tão carismáticas no Bar Cheers, com as quais conseguimos ter empatia e identificação, também fica de algum modo implícito que aquelas almas sofrem. Há ali, pelo menos, um ou dois elementos característicos que unem a todos: a solidão e o alcoolismo.

Quase todos têm algum nível de ansiedade, compulsão ou dificuldade de relacionamento e, não à toa, buscam refúgio na bolha da qual falamos, fora do tempo e do espaço, flutuando num líquido dourado de malte e lúpulo. O próprio protagonista da série, Sam Malone, deixou a carreira no baseball por problemas com o álcool e, ao final da série Cheers, inicia um tratamento para o vício em sexo.

A grande questão é que, por mais que você tente escapar de todos os sofrimentos da vida, buscando para isso uma caverna protegida dos horrores do casamento, do trabalho e do envelhecimento, as ondas tenebrosas e silenciosas do tempo farão qualquer navio tombar. O álcool pode até disfarçar qualquer incômodo cotidiano: fazer você esquecer que está sozinho, fazer você rir dos problemas financeiros e domésticos, dar de ombros para as rugas e os fios brancos – mas no longo prazo, comparado ao Senhor Tempo, o álcool não passar de uma formiga tonta. Nós fazemos parte de um grande formigueiro de formigas tontas, dançando como doidos antes do fim do mundo.

cheers-03Cenas do próximo capítulo. Prefiro enfrentar o fim inevitável de minha carcaça humana com dignidade: (quase sempre) sóbrio e nostálgico, celebrando os bons momentos que vivi ao lado de grandes amigos – uns perdidos para a bebida, outros levados pela morte, alguns separados pela distância e pelas voltas que o mundo dá – enfrentando o que vier pela frente e aproveitando cada minuto. Assim envelheço. Saí da bolha de entorpecimento no mar revolto da juventude. Aprendi a respirar fundo, nadar e buscar uma ilha próxima onde posso construir uma cabana simples e observar tudo ao meu redor com fôlego renovado e serenidade. Um brinde!

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