Married with Children e os estereótipos da vida em família: quando o amor é fora de série

A série de televisão Married… with Children (Casado… com Filhos, em Portugal; Um Amor de Família, no Brasil), exibida originalmente de 1987 a 1997 no canal norte-americano FOX, popularizou o conceito de família disfuncional, alcançando uma audiência cativa de milhões de espectadores todos os domingos à noite, durante 11 temporadas nos Estados Unidos. Por aqui, ficou conhecida através de reprises intermitentes desde 1994, principalmente nos canais Bandeirantes, HBO, Sony e, mais recentemente, TCM.

Uma família disfuncional pode ser reconhecida como tal quando avós, pais e filhos supostamente não exercem de forma adequada os papéis que lhes cabem, dentro das relações familiares, para o estabelecimento de uma vida sadia e feliz entre seus membros. Assim, podem instalar-se dentro do lar uma série de comportamentos destrutivos, como abuso psicológico, infantilização dos pais, maturação precoce dos filhos, uso de drogas, violência física ou traições, causando mal estar e sensação crônica de infelicidade.

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Um Amor de Família

No caso de Married… with Children, muito embora se trate de uma série que, em alguma medida, coloque em evidência a atuação de personagens aparentemente disfuncionais, a dinâmica toda se encaminha sempre para o lado cômico da vida em família.

Os brutos brigam…

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Logo da Série Married with Children

Como herói do programa, o pai Al Bundy (Ed O’Neill) parece, a princípio, ser um homem adulto frustrado, não apenas por ter se casado e permanecido a vida toda num emprego mal remunerado, que era para ter sido supostamente temporário (vendedor de sapatos femininos), mas principalmente por não ter realizado seu grande sonho de virar um famoso jogador de futebol americano – como sua juventude no Ensino Médio prometia. Ele chegou a marcar 4 touchdowns em 1 único jogo – fato notoriamente considerado por Al como o auge de sua vida.

Sua eterna companheira, Margaret “Peggy” Bundy (Katey Sagal), é a típica dona-de-casa vinda do interior que sonhava em casar com um homem rico, bem-sucedido e que, sobretudo, lhe proporcionasse uma vida de confortos e futilidades. Ela esperava que seu esposo a amasse com mais ternura e virilidade, proporcionando a si inúmeras noites de sexo e carinho. De alguma forma amalucada, seu marido Al também espera por mais atenção, mas Peggy ri de suas performances sexuais frustrantes, e ambos buscam conforto em devaneios burlescos, com a idealização de parceiros diferentes.

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Peggy Bundy num show de striptease

A primogênita Kelly Bundy (Christina Applegate) segue os passos da mãe e curte uma adolescência sedutora, atraindo inúmeros parceiros, sem preocupação com os estudos e em busca de um homem idealizado que, frequentemente, está ligado a uma imagem estereotipada de roqueiro selvagem. Ela parece ser pouco inteligente, mas sabe utilizar a beleza natural para conquistar as pessoas e tentar uma carreira de atriz, muito embora seja ridicularizada na própria casa.

Enquanto isto, seu irmão caçula Budrick Franklin “Bud” Bundy (David Faustino) é um rapaz de algum modo inteligente, que busca compensar sua falta de estatura física, bem como a rejeição sofrida pelo sexo oposto, com a criação de um alter-ego rapper auto-denominado Grandmaster B, com o qual tenta contornar suas frustrações pessoais. Em determinado momento, Bud muda-se para o porão da residência dos pais, local no qual tenta monta uma inverossímil base de operações para conquistar garotas e tornar-se uma espécie de agente da carreira de atriz de sua irmã. Invariavelmente, Bud Bundy também é alvo de chacotas de seus pais.

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Grandmaster B

Temos também o sarcástico cachorro de estimação da família, chamado de Buck, que após sua morte é substituído por Lucky, sendo este na verdade a reencarnação daquele. Para emoldurar as desventuras em série, encontramos os amigos e vizinhos Marcy Rhoades D’Arcy (Amanda Bearse), uma bancária ao mesmo tempo histérica e levemente masculinizada; seu primeiro marido, o também bancário Steve Rhoades (David Garrison), que posteriormente abandona a esposa a vira guarda florestal; e o segundo marido de Marcy, Jefferson D’Arcy (Ted McGinley), que é uma espécie de versão masculina de Peggy Bundy, um amável e sedutor pilantra, ex-agente da CIA, louco para dar o golpe do baú.

Como pano de fundo, as ilusões perdidas de todos os personagens acabam sempre reunidas num liquidificador seriado e elevadas à décima potência – porém de uma forma em que apenas o lado engraçado se sobressaia, sem vergonha de apelar para todos os tipos de clichês da adolescência e da vida adulta suburbana na América do Norte no final do séc. XX: a paixão pelos programas de televisão que emulam um subconsciente vil e rústico; o consumo excessivo de álcool e carne; o hábito masculino de frequentar casas de prostituição e ridicularizar as pretensões intelectuais das esposas; o deboche feminino acerca do desempenho sexual e financeiro decepcionante dos maridos; a obsessão pelo sucesso e juventude inalcançáveis; o ambíguo conformismo com o próprio fracasso.

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Jefferson D’Arcy

Além disto, apresentam-se com força anedótica o tédio do cotidiano conjugal e as tentativas ridículas de remendar os machucados do espírito com comida, sexo, carros (principalmente o suposto Dodge marrom de Al, que na verdade é um Plymouth Duster vermelho, porém muito sujo), motos (notavelmente a Harley-Davidson de Al), jogos e grupos de apoio (como o NO MA’AM (National Organization of Men Against Amazonian Masterhood; ou, na versão em português: SEM ELAS – Sociedade Etílica de Maridos Escapando do Lar Atrás de Sexo ou o Troy’s – um clube de striptease masculino onde Peggy é frequentadora assídua). O que vemos são, sobretudo, muitas confusões.

…mas também amam

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Al Bundy e Kelly Bundy

Apesar de anunciarem aos quatro ventos a infelicidade vivida em seus empregos de vendedores na Gary’s Shoes and Accessories For Today’s Woman (Na versão em português: Gary Sapatos e Acessórios para a Mulher Moderna) e em suas vidas conjugais, Al Bundy e seu colega de trabalho Griff (Harold Sylvester) deixam transparecer que, no fundo, são muito felizes, pois a fantasiosa tragédia de suas vidas é o alimento que nutre a ironia, o sarcasmo e o sorriso, que parecem sempre irradiar com um leve movimento de sobrancelhas.

Jefferson D’arcy, muito embora diga que não recebe ordens de sua mulher Marcy, no fundo adora levar algumas pisadas da esposa, que por sua vez ama puxá-lo pelo colarinho e traze-lo de volta para seu canto. Ela pensa ser uma grande mulher ativista, mas sabe que tudo que quer é o charme cafajeste de seu marido nas horas em que precisa de apoio.

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Al Bundy e Jefferson D’Arcy tomando um choque elétrico

Os homens já citados, além dos amigos do SEM ELAS, como o açougueiro Bob Rooney (E.E. Bell), Ike (Tom McCleister) e o policial Dan (Dan Tullis Jr.) divertem-se no clube, deslumbram-se com a revista masculina Big Uns (na versão em português: Peitões) e tomam a cerveja Girlie Girl Beer. Ocasionalmente agitam (ou traem?) no Jiggly Room / Nudie Bar (ou Salão do Agito) e frequentemente assistem à série satírica de televisão Psycho Dad (Papai Psicótico), com a qual Al Bundy identifica-se de corpo e alma. Embora Marcy D’Arcy tenha feito campanha pública pelo cancelamento da série Psycho Dad e eventualmente vencido o embate, o grupo SEM ELAS viajou a Washington, para pressionar os congressistas, e conseguiu reverter a decisão.

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Al Bundy e sua Harley-Davidson

Peggy Bundy resigna-se com a vida desocupada no sofá da sala, mas sua alegria mais arraigada consiste em viver tranquilamente ao lado de seu marido e seus filhos, enquanto come, assiste televisão, relembra os bons tempos na escola Polk High junto com Al e faz fofocas com sua vizinha Marcy D’Arcy, ao mesmo tempo em que aguarda ansiosamente o fervor sexual incipiente de Al e projeta seus sonhos inconclusos na filha Kelly. Ao seu lado, Al Bundy diverte-se com a mão dentro das próprias calças ou com a leitura de um jornal no banheiro, provavelmente seu cômodo favorito da casa.

Por sua vez Kelly Bundy, apesar mostrar-se insatisfeita com a falta de perspectivas para o futuro profissional, é feliz ao seu modo, impondo seu sorriso verdadeiro e encantador num mundo em que a falsidade é mantida do lado de fora da casa da Família Bundy. E

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Al Bundy e Peggy Bundy

Bud Bundy, enquanto persegue reiteradamente o sexo oposto de modo infrutífero, expõe a si mesmo ao ridículo de tornar-se mais um adulto à caça de sexo e poder. Não há pudores em se mostrar como é; isto é apenas uma entrega pessoal honesta ao mundo. Ambos os filhos sabem que, apesar de caçoados, também são muito amados pelos pais, que lhes protegem e dão apoio sempre que necessário. Prova disto é que Al costuma chamar Kelly carinhosamente de Pumpkin (ou docinho, na versão brasileira).

No fundo, são todos pessoas de seu tempo; conscientes das marionetes que são, assim como dos joguetes sociais e psicológicos aos quais estão submetidos para, ao fim e ao cabo, darem de ombros à tudo. No mundo real homens perseguem mulheres; mulheres riem dos homens, amigos fazem confusões; adolescentes imitam adultos; sonhos são levados pelo vento; mas a verdadeira família permanece unida. Brigando e rindo um pouco uns dos outros, nós – membros desta família inesquecível – percebemos que, afinal, amar é fora de série.

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2 comentários sobre “Married with Children e os estereótipos da vida em família: quando o amor é fora de série

  1. Amar é fora de série e cada família tem seus encantos (mesmo que pareça maluca no primeiro olhar). Resenha muito bem feita, gostei muito 🙂
    Resolvi participar de uma tag, onde o intuito é de mostrar e indicar blogs novos para os atuais seguidores. Não sei se você participa de tags por aqui, mas você foi um blog indicado. Caso não queira responder, não tem problema nenhum…
    Se quiseres dar uma olhada: https://divergenciasvitais.com/2017/07/04/tag-versatile-blogger-award/
    Te desejo uma ótima semana!
    Abraço

    Curtido por 1 pessoa

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