Nascidos entre 1977-1983: a geração Xennial foi a última que conheceu o mundo antes da internet

Era um mundo muito diferente. Outros tempos. Entre um programa infantil de manhã e um filme à noite na televisão, sobrava bastante tempo livre. Ou para ver mais televisão, ou para jogar um vídeo-game de 8 bits. Muitos de nós também brincávamos na rua com os amigos. Outros liam em casa, desde a Enciclopédia Barsa até o Almanaque do Escoteiro Mirim.

Existe uma certa geração – que muitos situam entre os nascidos de 1977 a 1983 (na verdade uma espécie de micro-geração, na qual eu me incluo) – que foi a última a ter conhecido de fato, ao vivo e a cores, o planeta Terra antes de ele ser invadido pela internet. Esta é a geração dos chamados Xennials: uma geração que cresceu longe das pequenas telas individuais e do conteúdo exclusivo dos smartphones, preferindo o compartilhamento de conteúdo entre a família numa tela grande.

cassette-1481444_1280Os Xennials caracterizam-se numa definição relativamente simples: são pessoas que tiveram infância analógica e vida adulta digital. Naturalmente se deduz que foram então os derradeiros seres humanos a lembrarem de um tempo em que o principal meio de comunicação e entretenimento era a televisão. Através dela os xennials conheceram o mundo, o dia e a noite, os crimes da cidade, a fome na África, as loucuras dos programas de auditório, os velhos filmes de ação, a raiva e o amor. E, para resolver qualquer problema emocional, era possível telefonar para o Disque Amizade (a rede social mais popular da época), ou ouvir uma anedota sem graça no Disque Piadas (uma espécie de corrente de memes transmitidos em áudio pelo telefone fixo).

guguCostuma-se afirmar que a geração anterior, nascida entre os anos 1960 e 1975, aproximadamente, foi a chamada Geração X, que não vivenciou a Segunda Guerra Mundial, porém viveu sob o medo da Guerra Fria entre União Soviética e Estados Unidos, e se caracterizou pelo desapontamento com a família, o casamento e as regras da sociedade em geral, levando à movimentos de contestação mundiais. Não havia muita preocupação com a saúde, fumar ainda tinha glamour e cursar uma boa universidade poderia garantir alguma posição na vida.

Já a geração posterior aos Xennials, os chamados Millenials (ou Geração Y), são pessoas que nasceram aproximadamente do final dos anos 1980 a 2000, e vivenciaram um mundo de revolução tecnológica profunda, onde os antigos meios de comunicação e informação começaram a ficar obsoletos com a ascensão da internet. Os Estados Unidos tornaram-se imbatíveis como a única superpotência dominante e tudo parecia ir bem. Consumir e produzir tornaram-se a mesma coisa.

wallpaper-1455828_1280A tecnologia prometia um futuro próspero e as crianças millenials já cresceram sem conhecer o que existia no mundo antes que a gente pudesse pesquisar qualquer coisa no Google. Porém surgiram também a preocupação com os hábitos alimentares, as atividades físicas e a falta de empregos, ao mesmo tempo em que a leitura parece cada dia mais uma coisa do passado.

Hoje toda a informação está na nuvem, de forma imaterial, podendo ser acessada a qualquer momento em qualquer parte. O mundo é digital, ou seja, toda criação humana que possa ser transformada em informação não necessita mais de um suporte físico – seja ele em papel, fita, celuloide, plástico, metal, couro, ou qualquer outra coisa.

Aquele foi o mundo analógico, o mundo do suporte físico. O mundo pré-1994 necessitava imprimir livros em papel, gravar vídeos em fita, armazenar filmes em celuloide, depositar e guardar coisas em caixas, disquetes, estantes ou armazéns. O serviço público necessitava de imensos prédios e galpões para armazenar tanta burocracia, carimbos e papelada. Hoje tudo isto está a um clique. Voa com o vento através das nuvens de zeros e uns. Virou 2.0.

De certa forma, a expressão do viver naquela época antes da chegada da internet, por volta de 1994, era um grande verbo: correr, pular, nadar, rir, suar, machucar. Éramos crianças e, além de ler, ver televisão e comer doces gotosos, também gostávamos de brincar, seja em casa ou na rua.

xennialNão importava tanto o brinquedo ou o meio: poderia ser com objetos como peão, bolinha de gude, corda ou bola, mas também poderia envolver uma simples brincadeira de correr e pegar, se esconder, cantarolar músicas ou inventar danças. E antes de dormir você também sabia de cor quais eram os programas de rádio que tocavam em cada estação. Sim, ainda ouvíamos rádio – e não podcasts

Enquanto isto, os mais modernos se divertiam com inúmeros jogos como Vire a Mesa, 60 Segundos, ou Aquaplay; talvez futebol de mesa ou damas. Outros já ostentavam um poderoso Walkman – até mesmo um Discman! Ter um aparelho de som 3 em 1, ou 4 em 1, era o máximo.

Na verdade, o grande diferencial daquela época em relação à hoje reside no fato de que a informação não apenas necessitava de um suporte físico como fitas cassete ou CDs, mas precisava sobretudo entrar em uma grade de programação pautada e controlada por adultos. Não era qualquer pessoa que conseguia produzir conteúdo e divulga-lo na mídia para milhões de consumidores. O jornalismo era coisa de gente grande – e nós, crianças assustadas, adorávamos aquilo.

aquaplay

Hoje podemos publicar um blog ou canal no You Tube sem qualquer restrição, e tudo estará disponível em todo o planeta 24 horas por dia. Mas naquela época era preciso ter um mínimo de estudo para conseguir publicar um livro, gravar um disco, fazer um programa no rádio ou emplacar uma produção na televisão. E tudo deveria obedecer a uma ordem pré-estabelecida de interesses e informações, numa sequência lógica.

Em determinado horário só passava determinado tipo de programa. Em determinada época, só eram lançados determinados autores ou músicos. Havia uma data e hora ideal para o lançamento de novidades e continuações. Não perca amanhã. Na mesma hora, no mesmo canal. Cenas do próximo capítulo. É claro que isto ainda existe, mas é mais restrito aos antigos veículos de comunicação.

cassette-624590_1280A internet hoje pulverizou toda a produção de conteúdo a bilhões de pessoas. São bilhões de produtores espalhados por todo o globo, equipados apenas com um smartphone, e bilhões de consumidores dispostos a oferecer 5 ou 10 segundos da sua audiência. Tudo desliza na tela de uma forma extremamente rápida, e já não temos paciência para aguardar a próxima temporada.

Acredito que todos os nascidos de 1985 até 1995, ficaram numa espécie de limbo, pois ainda não havia internet, mas ainda eram muito pequenos quando ela não existia ou, de maneira geral, não tiveram tempo suficiente para criar fortes laços de memória afetiva ao mundo antes da internet.

Ao contrário, quem nasceu uma década antes, simplificadamente entre 1975 e 1985 (os chamados Xennials: mistura de Geração X com Millenial) conseguiu ter o tempo necessário não apenas para criar afeto com as coisas materiais existentes antes da internet, mas sobretudo para lembrar dessas coisas com a devida nitidez e criar uma nostalgia icônica, e algo distinta, em torno de tudo que ficou espremido entre o mundo pré e pós internet.

Ninguém mais se lembrará da vida sem internet quando o último Xennial morrer. Contaremos em eBooks, ou entrevistas para o You Tube, sobre nossas memórias daquele tempo engraçado, em que era necessário sorrir com a própria boca quando queríamos mandar um emoji de sorriso. Infelizmente, os nativos digitais não terão essas fitas analógicas de memória em seus arquivos cerebrais.

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7 comentários sobre “Nascidos entre 1977-1983: a geração Xennial foi a última que conheceu o mundo antes da internet

  1. AAAH, AQUAPLAY ERA TÃO MANEIRO!!! Hahaha
    Nāo peguei tanto dos jogos 8 bits, mas me esbaldei com os de 16 bits, que se bobear são meus favoritos e insuperáveis até hoje (Chrono Trigger sendo o melhor exemplo de todos), não tem jogo com super gráfico que supere!
    Muito bom texto! A melhor fase da vida provavelmente é sempre a que a gente tá vivendo agora, mas essas lembranças gostosas trazem uma saudade boa de quando a vida era mais simples…

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  2. Excelente análise e artigo!
    Adorei perceber que sou de uma geração que não tem nome (nasci antes de 1960), que dei à luz uma Xennial…depois um pré-Millenial…que a todos me adaptei…apesar dos sons da minha infância terem sido a natureza, as brincadeiras, a rádio e de ter visto a televisão nascer. A televisão e tudo o que se lhe seguiu!
    E mais ainda,,,que espero viver uma velhice em sintonia com a “nuvem”!
    Que nome terá a minha geração?…

    Curtido por 1 pessoa

    • Dulce, obrigado pelo comentário. Creio que você seja da geração anterior à X; no caso, os nascidos logo após à Segunda Guerra Mundial, entre 1945 a 1955 ou 1960, são chamados de baby boomers. O nome veio de uma “explosão” repentina no número de nascimentos depois da guerra. Que bom que você teve a possibilidade de ver o nascimento da TV e, mais ainda, de acompanhar o crescimento de seus filhos no crepúsculo do século XX e todas as transformações que vivenciamos no ocidente… Também estou envelhecendo com alguma sintonia com a nuvem, mas sem deixar de lembrar da época que mais me marcou, quando a televisão ainda reinava soberana e eu fazia amigos através de cartas escritas à mão… Isto tudo ficou lá atrás, mas espero pouco a pouco criar um pequeno acervo com essas memórias e nostalgias neste blog.

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