Se é Madrugada, Goulart de Andrade está no Comando: Vem Comigo!

Blue Moon. Esta canção norte-americana, composta em 1934 por Richard Rodgers, tornou-se famosa ao longo do século XX, tendo sido regravada incontáveis vezes por diferentes artistas, incluindo Frank Sinatra. No Brasil, ficou muito conhecida por ser tema de abertura de um certo programa televisivo, numa versão do pianista Cesar Camargo Mariano, ex-marido da falecida Elis Regina e pai de sua filha, a também cantora Maria Rita.

Feche os olhos. É madrugada de sábado para domingo. Você está relaxando, está em casa. Você tem 10 anos de idade, está sozinho em seu quarto, está em paz. Seus pais dormem (?) no outro quarto. Uma lua cheia azul ilumina obliquamente uma fresta na sua janela. Você sobe na sua cama e observa o movimento dos prédios vizinhos. Todos os apartamentos estão com as luzes apagadas, porém tremulam cores e sombras vivas dos aparelhos de TV.

Então você também desliga a luz de seu abajur e liga a televisão. Diante de si, surge a imagem de um anjo que transmite apenas paz. Mas que também poderia ser um monstro grandioso, cheio de verve, som e fúria jornalística. A lua é azul. A noite é uma criança. Abrem-se as cortinas para o Comando da Madrugada.

Zeitgeist

Este que aí está, iluminando seu caminho, é o saudoso apresentador Luís Filipe Goulart de Andrade. Ou apenas Goulart de Andrade, para nós íntimos. No final dos anos 80 e início dos 90, seu programa de reportagens e entrevistas estava no auge – e a minha vida, provavelmente, também.

goulart-de-andrade-03Existe uma expressão alemã chamada Zeitgeist, que pode ser traduzida como espírito da época. Para o filósofo Hegel, a arte necessariamente reflete a cultura da época em que foi produzida. Em seu tempo, muitos artistas tentavam recriar uma arte clássica – tentativas estas rechaçadas com a filosofia hegeliana, que dizia ser impossível recriar aquilo que foi produzido em tempos imemoriais.

O pensador Walter Benjamin introduziu no início do século XX o conceito de reprodutibilidade técnica da arte, despojando esta e o artista de sua aura aristocrática. Entretanto, de alguma forma, o programa, as matérias, a postura e a técnica editorial de Goulart de Andrade fazem parte do espírito daquela época e não podem ser reproduzidos, mesmo que à disposição no You Tube. As sensações lá e cá já não são as mesmas.

goulart-de-andrade-televisaoÉ verdade que os vídeos de Goulart alcançaram simultaneamente milhões de lares – através de vários canais como Globo, SBT, Bandeirantes, Gazeta, Manchete e Record, massificando a cultura a níveis jamais vistos na era pré-internet. E, mesmo assim, é difícil afirmar que não estamos tratando de uma obra de arte praticamente artesanal, sensual e mágica, com a elaboração de conceitos e ideias que talvez nenhum outro repórter de seu tempo captou com melhor precisão.

Para Goulart de Andrade, não existiam câmeras de TV: existia seu público. Para nós, telespectadores, não existiam aparelhos de televisão: existia o grande repórter, o excelente apresentador, o poeta Virgílio que nos conduzia por mares nunca dantes navegados – até as profundezas do inferno humano, demasiado humano. Abandonai as esperanças, vós que entrais.

O anfitrião da Madrugada

Pense em VHS. Pense em imagens com vultos, borrões. Uma transmissão granulada, com poucos pixels de resolução, mas com um brilho marcante na produção, fruto da mente de um jornalista visionário.

Goulart de Andrade iniciou sua carreira no cinema, gravando documentário sobre a construção de Brasília. Porém, durante uma palestra sobre o tema, em 1955, foi convidado a trabalhar na TV Rio, na assistência de direção do programa “Preto no Branco”, a convite de Fernando Barbosa Lima, reconhecido jornalista e diretor de televisão. E nunca mais parou.

goulart-de-andrade-entrevistandoGoulart trabalhou com o astro Chico Anysio na extinta TV Tupi, nos anos 70, e colaborou no surgimento do apresentador Fausto Silva nos anos 80: – “Ele fazia fazia TV no rádio, mas eu achei que ele deveria fazer rádio na TV”, afirmou Goulart. Era o começo do primeiro programa de sucesso do Faustão, o ‘Perdidos na Noite’. O próprio Goulart criou o antecessor do Comando da Madrugada – o Plantão da Madrugada – na Rádio Globo, em 1978, com o embrião chamado São Paulo – Zero Hora, enquanto comandava, do estúdio, uma equipe de repórteres com microfones na noite paulistana.

Em seu icônico programa de televisão, o Comando da Madrugada, ou em outros sob sua tutela, Goulart de Andrade desfilava uma série de reportagens marcantes. Entre elas, gravou matérias famosas sobre a Aids, o manicômio Juqueri, a penitenciária do Carandiru; apresentou o trabalho de médicos legistas, exibiu a necrópsia de PC Farias, gravou a própria cirurgia do coração e o parto da neta, falou do ET de Varginha, discos voadores, poltergeist, pulou de paraquedas, encarnou um palhaço de circo, um travesti, experimentou LSD e Santo Daime, entrevistou viciados, mineiros, famosos e anônimos, foi premiado em Nova Iorque…

Suor e lágrimas

Goulart foi provavelmente o melhor representante no Brasil do chamado Jornalismo Gonzo, estilo narrativo em primeira pessoa, onde o repórter é personagem ativo de suas matérias, inaugurado nos anos 60 pelo norte-americano Hunter Thompson na Revista Rolling Stone. Não à toa, o bordão mais famoso de Goulart, “Vem Comigo!”, incitava o público a acompanhá-lo em suas andanças pelo mundo.

À moda de uma espécie de flâneur parisiense, caminhando sem destino pelas ruas da cidade, Andrade foi notável por criar histórias do nada. Seu estilo de investigação e reportagem seguiam um roteiro muito simples: saía à rua com seu cameraman e simplesmente buscava pessoas e situações comuns, como um gari varrendo ou uma ambulância passando.

No pedreiro que tomava seu cafezinho na rua, na mulher que estava grávida e aguardava no ponto de ônibus, no engravatado da Avenida Paulista, no taxista apressado ou no vendedor ambulante, Goulart encontrava a grande substância de suas reportagens: o ser humano e seu ofício. O suor e as lágrimas. O burlesco e o grotesco da vida em sociedade.

Ninguém além dele e sua curiosidade memorável poderiam captar de forma mais honesta o que foram os anos dourados da televisão e da produção de vídeos antes das redes sociais. Difícil dizer quem era autor e personagem, repórter e entrevistado em suas matérias. Tudo se confundia. Até mesmo no fim da vida e da carreira, Goulart de Andrade colocava-se o tempo todo em um cenário de perguntas e respostas com funcionários e estudantes de jornalismo na TV Gazeta, onde gravou seu último programa, que levava o nome de seu bordão.

goulart-de-andrade-02Também é importante destacar o ótimo trabalho de seu cinegrafista de muitos anos, o “Capeta”, que criou excelentes planos-sequência enquanto seguia o herói Goulart através dos escombros da vida. A parceria Goulart-Capeta rendeu trabalhos de memória audiovisual inigualáveis, onde nos parece, em muitos momentos, estarmos mergulhados num filme soviético de Andrei Tarkovski. Goulart de Andrade não é apenas o guia que conduz o novato pela belíssima zona proibida; ele é, ao mesmo tempo, o repórter-modelo da Guerra Fria, quando o operariado ainda tinha seu lugar no mundo.

Viradas as engrenagens da História e distorcidos os valores do capital e do trabalho no século XXI, o Comando da Madrugada parecia ser esse lugar. Andrade tinha a delicadeza e a elegância de honrar cada entrevistado com uma medalha de orgulho no peito. Cada homem e cada mulher que passavam por seu programa deixavam de ser anônimos descartáveis – e cada um deles, à sua maneira, tornava-se herói em sua própria história.

A persona

Goulart de Andrade era carioca, neto do jornalista e senador alagoano Eusébio de Andrade e da jornalista responsável pelo “O Jornal”, de Assis Chateaubriand. Filho do diretor do Senado Flávio de Andrade e da cantora de rádio Elisinha Coelho. Sobrinho-neto do escritor José Maria Goulart de Andrade; teve como madrinha de batismo a renomada atriz Carmen Miranda.

goulart-de-andrade-televisao-02Tendo em vista que seus pais eram separados, Goulart de Andrade foi tutelado pela avó jornalista, que incentivou a veia de repórter em seu neto desde a morte de Getúlio Vargas, que deixou o pequeno Goulart muito curioso. Posteriormente ele começou a escrever crônicas para o jornal “Beira-Mar”, em Copacabana e sua avó disse: -“Tenho continuidade!”

A mesma frase foi dita por Goulart para seu neto, durante a filmagem de seu parto. Talvez toda jornada de vida de Goulart de Andrade o tenha levado – e nos tenha levado a todos juntamente consigo – ao nascimento de seu neto e à realização de um sonho de vida: a contação de histórias, a semeadura de ideias, a gestação da reportagem e, por fim, o nascimento do eu-repórter.

O comandante da madrugada

Por que Goulart apresentava seus programas justamente nas madrugadas de sábado para domingo? Este detalhe fazia toda a diferença em seu programa. Não faria sentido assistir ao Goulart entrevistando um doente terminal de Aids às 2h da tarde de quarta-feira. Tampouco seria razoável observar, às 9h de segunda-feira, Goulart de Andrade caminhando a esmo por 15 minutos dentro de um hospício e perguntando a uma paciente internada no local:

  • O que você pensa da situação brasileira atualmente?
  • Bem, eu acho que a inflação está muito alta, as famílias não tem o que comer e, enquanto isto, a corrupção em Brasília está mais grave que nunca.
  • E qual é a doença mental da senhora, mesmo?

Tudo isto tinha local e horário certo para ser bem visto e aproveitado em todos os seus ângulos e nuances. Goulart era o capitão do barco notívago, aquele que mostrava sem pudores o lado cão da autoria jornalística, que quase confundia-se com um trabalho literário. De certa forma, Goulart de Andrade continuava sendo o mesmo documentarista do início da carreira, porém na televisão.

goulart-de-andrade-entrevistando-03Quando novo, Goulart caçava documentários estrangeiros nas cinematecas das embaixadas e fazia locuções ao vivo na televisão, antes do surgimento do videotape no Brasil, a partir do material colhido. Então foi chamado para trabalhar em um programa de entrevistas, chamado Três Leões Apresentam um Cartaz. Em seguida, foi para a Tupi aos domingos para apresentar o Grande Atrações Pirelli. Daí para a o Globo Repórter e o Fantástico foi um pulo.

Em entrevista com o cardiologista Jesus Zerbini, sentiu-se mal. O médico lhe pediu para fazer um exame e Goulart solicitou autorização para gravar. Tudo foi filmado, inclusive a posterior cirurgia de ponte de safena do repórter.

Cansado com o estresse do Globo Repórter, solicitou ao grande diretor da Globo, o Boni, que pudesse migrar para um estilo mais pessoal e então sugeriu cobrir a vida noturna de São Paulo. Nascia o Comando da Madrugada, que durou 32 anos e passou por basicamente todas as emissoras de TV. Além disso, em todas elas Goulart deixou implantado algum programa no estilo do Globo Repórter.

No comando de seu último programa, o Vem Comigo na TV Gazeta, Goulart exibia suas antigas reportagens para alunos de jornalismo da Faculdade Casper Líbero e os orientava na reciclagem das matérias.

O plano-sequência no jornalismo foi possivelmente o legado mais notável de Goulart de Andrade. Segundo ele, gravar vários pedaços da reportagem, levar ao estúdio, picotar, montar e narrar em off era desgastante demais – enquanto manter o material gravado intacto e exibi-lo na forma mais integral possível conferia uma originalidade sem precedentes ao produto lançado. A vida acontecia ao vivo, e Goulart estava ali para nos lembrar que havia sangue em nossas veias.

Em entrevista para Osmar Portilho, Goulart confidenciou que foi um entusiasta de grandes cineastas, famosos pela utilização do plano-sequência, como Buñuel, Hitchcock, Welles, e tal fato estava na origem de seu interesse no estilo cinematográfico. Além disto, havia um motivo prático para transplantá-lo para a televisão no Comando da Madrugada: 1:30h da manhã era o horário em que a última câmera do jornalismo na Globo ficava totalmente disponível. Ele e Capeta ultrapassavam os umbrais da Ipiranga e da Avenida São João com a energia necessária para entregar o melhor material possível para a edição, evitando o retrabalho da montagem no estúdio.

Segundo o próprio, Goulart de Andrade era o homem com olhos e ouvidos eletrônicos, que tirava leite de pedra a produzia grandes matérias até mesmo sobre parafusos – o que de fato ocorreu. Alguém dirigindo um carro na sua frente era motivação suficiente para criar uma reportagem: saber a origem do motorista, qual a sua história, o que ele está fazendo, como faz, para onde vai, o que o move? A curiosidade move o repórter.

goulart-de-andrade-01Sua primeira pauta foi nesse sentido: correndo atrás de um carro do IML, que levou ele e o Capeta para um apartamento, onde jazia o cadáver solitário de um homem que havia morrido ouvindo Elis Regina e comendo macarrão. Tudo que funcionava durante a madrugada lhe atraía: rotativas de imprensa, boates, restaurantes, rondas policiais…

Foram mais de 15 mil horas de acervo gravados de uma profissão imensamente rica – embora mal paga. Cada personagem e cada cenário narrados serviram para emocionar milhões de brasileiros e construir a própria história de Goulart. O jornalismo era sua vida e ele um operário desta arte. Infelizmente, ele acreditava, o jornalista é um profissional que, assim como outros como sapateiro, engraxate e alfaiate, estão em risco de extinção. Por dever do seu ofício, Goulart superava todos os medos. A aventura era sempre maior, como nadar com baleias ou descer nos esgotos. “Eu escolhi isso”, afirmou.

Além do trabalho na TV, Goulart de Andrade também trabalhou no jornal Última Hora e Aqui São Paulo. Dirigiu os setores de criatividade das agências de publicidade McCann Erickson e Esquire. Recebeu importantes prêmios como o Roquete Pinto e o Troféu Imprensa.

Estou órfão

Goulart de Andrade faleceu em 23 de agosto de 2016, aos 83 anos de idade. Eu e milhões de operários e trabalhadores ficamos órfãos. A televisão – a diversão das massas na segunda metade do século XX – nunca mais será a mesma e eu jamais poderei entrevistá-lo pessoalmente.

goulart-de-andrade-vem-comigoAgora em minha mente é sempre madrugada. Estou finalmente no comando da minha vida. Apago as luzes, deixo a luz da lua azul entrar em meu quarto e saboreio a boemia, os sons eletrônicos dos 80, o inusitado lugar-comum do tempo que passa na transmissão analógica de imagens e pensamentos. Podemos desfrutar de todos os prazeres e fugir de todos os males. Menos do tempo.

Ficou curioso? Clique nos links abaixo para saber mais sobre Goulart de Andrade: 

https://diversao.terra.com.br/tv/programas/aos-79-goulart-de-andrade-diz-que-ficou-abalado-longe-da-tv,de962e6f9e24b310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html

http://memoriaglobo.globo.com/programas/jornalismo/programas-jornalisticos/plantao-da-madrugada.htm

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