O mundo como você nunca viu: Beakman, o devorador de crianças

Um vento congelante assopra em seus ouvidos numa paisagem coberta de neve, sob um sol poente de inverno eterno. O ambiente é amedrontador. Exceto por dois pinguins, você está completamente só.

O mundo é um lugar apavorante quando você é criança. As adversidades da vida cotidiana, os perigos da cultura moderna, as heranças psicológicas, as crendices milenares, os dissabores na escola… Tudo leva a crer que viver e tornar-se adulto não será nada senão uma jornada árida e infrutífera por um vale sombrio e escuro.

E, de repente, isto: você está com dois pinguins à sua frente, no meio do deserto branco do Pólo Sul. Um chama-se Don. O outro Herb. Uma caixa preta, de 14 polegadas, com uma tela brilhante na frente e duas saídas de som proeminentes em suas laterais está no meio da cena. Os pinguins observam o meio desta cena com surpresa. Você observa o meio da mesma cena com curiosidade.

Tudo era uma imensa Deep Web

Pinguins-Mundo-de-Beakman

Os pinguins Don e Herb

Estamos no miolo dos anos 90. Essa época não apresentou nada ao coração inóspito das crianças. O Windows 95 fez você pegar recuperação em Informática na escola. A banda Hole, na MTV, fazia o mundo parecer um buraco desolador.

A internet tampouco oferecia esperança: o espírito do hipertexto engatinhava e não havia o poderoso Google. De forma que, até para entrar num site, era necessário digitar o endereço completo. Com muitos números, travessões e caracteres obscuros.

Quem observa quem?

No meio de toda essa parafernália intercultural e multipolar que dava seus primeiros passos para um dissonante mundo novo, entre 1992 e 1998, foi ao ar a série de televisão O Mundo de Beakman. Uma experiência interessante e exitosa de contato com as mentes juvenis. Crianças e adolescentes de 90 países ao redor do globo se conectavam semanalmente aos dois pinguins.

beakman

Beakman

No frio decadente dos anos 90, os animais assistiam uma televisão convencional, com imagem gerada por tubo. Enquanto isto, na Antártida, os pinguins faziam exatamente a mesma coisa, pelo visto. Vimos TV e fomos observados ao mesmo tempo. Como entrar em sintonia fina com o público entre 8 e 14 anos?, pensaram os produtores do show.

Simples. Coloquem um rato vestido de homem (ou um homem vestido de rato, dá na mesma). Mandem ele fazer coisas. Obriguem-no a se sujeitar a experiências degradantes. Entre elas, inúmeras situações envolvendo a pressão do ar. Seu nome era Lester, o rato.

Do outro lado do Mundo

lester-rat

Mark Ritts como o Rato Lester

O cara fantasiado de rato. Mark Ritts foi um importante ator, bonequeiro, produtor de televisão e diretor nos Estados Unidos. Além de interpretar um ator mal sucedido e ajudante trapalhão, também operava um dos pinguins na abertura e encerramento de cada programa da série O Mundo de Beakman.

Este rato de laboratório em forma de fracasso humano era vítima de todo tipo de infortúnios científicos, para o deleite das crianças em frente à TV Cultura, no Brasil. Frequentemente saía de algum quadro queimado, torturado, abatido, enjoado ou quase morto. Sempre queria trocar de profissão.

Na fase de elaboração do projeto do programa, Ritts deveria apenas operar bonecos de marionete, porém algum produtor achou que seria melhor que o ator interpretasse um homem-rato. O queijo estava lançado.

josie-mundo-de-beakman

Alanna Ubach como Josie

A próxima na ratoeira do sadismo do show business infantil foi Alanna Ubachassistente de Beakman durante a primeira das 4 temporadas do show.

Enquanto o doutor maluco da televisão ensinava suas peripécias com balões de água e bugigangas diversas, a escudeira Josie dava boas risadas com as desventuras de seu companheiro Lester.

Alanna também fez outros trabalhos na mídia, como Serena McGuire em Legalmente Loira e deu vida a 4 personagens em Rango, animação ganhadora do Oscar.

eliza-schneider-beakmanJá Eliza Schneider foi a segunda assistente de palco de Beakman. Embora não tivesse o mesmo carisma de Josie, Liza também emocionava os animais em frente à caixa preta.

Schneider, contudo, tinha grande potencial para suceder Beakman como apresentadora oficial do programa, tendo ficado ao seu lado por duas temporadas. Atriz da Broadway, ela também ficou conhecida por fazer inúmeras dublagens, sendo as mais conhecidas para o desenho animado South Park, outra infâmia dos anos 90.

Inexplicavelmente, Liza foi então substituída por outra assistente da qual poucos se lembram. Tudo teria a ver com uma nova espécie de raios catódicos lançados pelos tubos televisivos diretamente nas pupilas infanto-juvenis de todo o planeta, previamente manipulados nos estúdios do canal norte-americano CBS, onde o roteiro rolava solto entre a segunda e quarta temporadas. O brilho mágico nos cegou a todos após a primeira temporada independente. Esquecemos.

beakmans-worldAdiante, a terceira e última assistente de Beakman foi Senta Moses, atriz de rosto familiar, com várias aparições na mídia. Já fez mais de 100 comerciais para a televisão.

Além de O Mundo de Beakman, Moses, ou melhor, a assistente Phoebe também ficou conhecida por interpretar personagens em vários filmes, entre eles Esqueceram de Mim 1 e 2, como prima de Kevin McCallister.

Por fim, não podemos esquecer do grande Paul Zaloom, o homem por trás do jaleco verde. Também ator e bonequeiro, Zaloom criou não apenas o programa de ciências para crianças mais famoso dos anos 90, mas também outros 10 shows no mesmo estilo, como Mighty Nice e Fruit of Zaloon.

Curiosamente, Zaloom! era a exclamação preferida de Beakman quando um de seus experimentos dava certo. Seu show era apresentado numa espécie de garagem de apetrechos insanos, enquanto nós, os jovens do lado de cá, assistíamos atentos à uma série de situações burlescas envolvendo densidade, eletricidade e flatulência.

No mesmo programa, Zaloom também cativou interpretando outros personagens, como Beakmom, Professor I. M. Boring e outras caricaturas de cientistas famosos. Vida longa a Beakman e seus 91 episódios de 22 minutos.

Bada Bing, Bada Bang…

paul-zaloom

Paul Zaloom

E o tempo passou! Para todos. As décadas voaram lentas. As rugas brotaram ligeiras. Os cabelos perdem a cor, caem e semeiam o chão com novos shows, novas andanças. Ficou a promessa de um mundo muito mais colorido.

Pois o mundo poderia ter congelado naquela paisagem branca como a neve. Poderia ter sido pausado no controle remoto de Don e Herb. O Mundo teria morrido lá em algum ponto de 1997. Perdido nas mãos de Beakman.

Era um mundo frio e sem propósito. As crianças não conheciam nada sobre eletromagnetismo. Os adolescentes não se interessavam por química orgânica. Tudo se encaminhava para uma maturidade sem graça. Mas então vieram os pinguins. O rato. As assistentes. O cientista maluco do cabelo arrepiado. E tudo fez sentido.

O fim do inverno e o despertar para o meu mundo passou, entre tantos outros, pelo Mundo de Beakman, a primavera dos devaneios perdidos.

 

Anúncios

3 comentários sobre “O mundo como você nunca viu: Beakman, o devorador de crianças

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s