Feminilidade, poder e medo: A Bruxa

É comum no cinema encontrarmos histórias que nos levam por caminhos interessantes, rumos complicados e que, muitas vezes, concluem o enredo com finais arrebatadores ou, de alguma forma, surpreendentes. Isto porque esses finais causam uma grande quebra de expectativa no espectador de um filme. Toda a trama caminhava por um lado, tudo parecia estar se encaixando quando, de repente, o mistério se revela inimaginável e impossível de ser deduzido nos dois terços iniciais da obra em questão.

Porém, outras vezes, aguardamos tanto por um final digno de reviravoltas novelescas que isto acaba por se tornar um lugar comum. E aí, o que era para ser um choque, torna-se um mero sorriso sem graça, pois as reviravoltas já deixaram o espectador acostumado, preparado para o momento da revelação do mistério que envolve seu herói. Quando chegamos neste ponto (de não sermos mais surpreendidos por finais-surpresa) os finais simples, belamente construídos no decorrer da narrativa, mas que não levam a uma conclusão inesperada, acabam por arrebatar a atenção de outro modo, surpreendendo por uma conclusão que, de tão evidente no roteiro, custa perceber que o que estamos vendo continuará sendo daquela forma até o fim.

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Anya Taylor-Joy como Thomasin

Este é o caso do filme A Bruxa (2015), de Robert Eggers, que nos introduz o ambiente colonial da América do Norte nos anos 1600 de forma contundente – não por uma filmagem psicótica ou montagem frenética, como frequentemente vemos em filmes de suspense ditos modernos, mas justamente o contrário: Eggers mostra as coisas com calma, uma certa contemplação e amor pelo ambiente e seus personagens, ao mesmo tempo vítimas do tempo e autores de sua própria má sorte. O peso da indigência e os desatinos do fervor religioso costuram cada cena da família degredada junto ao bosque com a agulha do medo e a linha dos pesadelos mais íntimos.

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Os irmãos menores de Thomasin cuidam de um bode amaldiçoado

Desde o princípio temos e bela adolescente Thomasin (interpretada pela talentosíssima Anya Taylor-Joy), apontada como protagonista de uma série de infortúnios e desastres que se acumulam entre seus pais, cristãos miseráveis em busca de uma vida nova, e seus irmãos, pequenos anjos de índole duvidosa, que apenas repetem as fábulas de bruxarias e demônios contaminadas em seu contexto social. De forma que, quando o bebê recém nascido some sob os cuidados da irmã adolescente, é sobre ela que recaem todas as acusações.

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O pai sofre com a pobreza, a ignorância, a perda e a maldição

Sua família perde absolutamente tudo de forma eficaz e paulatina desde o princípio. São expulsos de sua colônia por alguma desconfiança religiosa da sociedade em que viviam. Paira a dúvida. Sozinhos, partem para o meio das árvores, isolados, onde estabelecem abrigo e procuram plantar. O pais, colonos ingleses que veem o mal como a raiz do universo, possuem mínima instrução para os cuidados de uma pequena fazenda de milho e a lida dos animais, como porcos e bodes. As colheitas se perdem. O filho de colo desaparece. As crianças mais novas brincam com o oculto. O irmão mais velho é atacado por uma força misteriosa na floresta. Animais morrem. A mãe é levada à insanidade. O pai luta com todas suas forças para perdoar a filha Thomasin, mesmo desconfiando que ela fez algum pacto com o mal, e implora à Deus que este não faça mal aos seus filhos – numa cena mais que comovente de dor e morte.

Tudo leva o espectador a crer que será mais um roteiro que trata do machismo e da fúria religiosa num ambiente de pura ignorância. De fato, isto existe, mas apenas como pretexto. Porque, ao final, fica evidente que se trata da loucura de uma família doente, da miséria, do abandono, da perda, bem como dos pactos sinistros que estamos dispostos a aceitar quando tudo que amávamos nos foi tomado, quando perdemos tudo. Isto foi sendo construído pouco a pouco no decorrer da história, sem reviravoltas.

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Thomasin: a Bruxa

O desabrochar maligno que envolve a feminilidade pura de Thomasin é o mistério óbvio que não estamos dispostos a aceitar de início, explodindo nossa mente com cenas finais envolventes e angustiantes, que simplesmente não poderiam acontecer de outra forma. A grande surpresa do filme é a atuação nefasta do elemento oculto do mal e do poder que nos recusamos a enxergar, somada à filmagem segura e paciente de seus realizadores.

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5 comentários sobre “Feminilidade, poder e medo: A Bruxa

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