Paul Giamatti: a vida e a carreira do Anti-Herói Americano em 3 atos e 13 filmes

  • Primeiro Ato: Apresentação demasiadamente cerimoniosa para uma vida tão apressada

A vida é engraçada. A vida é triste. Qual é a deixa para uma boa risada? Em que momento se deve abandonar o ar grave e sisudo para reencontrar o amor e a esperança? Pausa para reflexão. Parafraseando o filósofo Nietzsche, é preciso cautela ao lidar com monstros.

Dentro de cada um de nós há um grande abismo de sentimentos profundos. Raiva, dor, ódio, paixão, alegria intensa. Quando se contempla um grande vazio existencial, um enorme espelho se coloca diante de nós. Devemos enfrentar, completamente nus, os deuses do delírio e do acaso.

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Paul Giamatti

Paul Giamatti é aquele tipo de demônio angelical que você gostaria de ter como seu amigo ou vizinho. O mestre que vai lhe ensinar a domar seus instintos mais bestiais. Ele sofre como você gostaria de sofrer. Ele fala como você gostaria de falar. Ele seduz almas como você gostaria de seduzir. Ele repele com elegância atonal qualquer tentativa de proximidade. Diríamosatrativo e repugnante na medida certa.

Imagine-se desenvolvendo seu trabalho tranquilamente no escritório numa terça-feira chuvosa. Você está lá, vibrante e focado, rompendo as barreiras do cotidiano, ultrapassando limites burocráticos. Giamatti é o inconveniente funcionário do almoxarifado que interrompe – com os olhos esbugalhados – tudo que você está fazendo e te convida a tomar um café horrível da máquina no meio do corredor do sexto andar. E você fica estranhamente feliz toda vez que isto acontece.

paul-giamatti-01Quando as cortinas do palco da vida se abrem, é bom termos um amigo sincero e fraterno como Paul ao nosso lado. Você está sozinho e iluminado no centro do palco. A plateia está em silêncio. No backstage, atrás das cortinas, Giamatti é a sua referência. Aquele para o qual você olha e ele responde, apenas com um olhar: siga em frente.

  • Segundo Ato: O humano demasiado ator – e o ator demasiado humano

Nascido em 1967 em Connecticut, filho de dois professores, Paul Giamatti foi provavelmente um dos maiores talentos do cinema nos anos 1990 e 2000. Peça-chave em inúmeras obras da sétima arte, que não apenas marcaram época e estilo de uma geração, mas também ecoam com acento nostálgico nas reminiscências cinematográficas da minha vida.

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Paul Giamatti em Sideways

Podemos citar várias passagens marcantes de Paul na tela grande, seja como ator coadjuvante ou protagonista, em que um senso incomum de integridade e alienação habitam o mesmo corpo, transferindo aos personagens interpretados a máscara necessária à exaltação das dissonâncias humanas.

Oriundas do teatro grego clássico, as máscaras de alegria e tristeza representam bem os sentidos opostos, Yin e Yang, que transitam em Paul Giamatti. Em alguma medida, nos parece que alguma coisa fundamentalmente errada irá explodir de dentro do ator, como numa erupção ensurdecedora de silêncio dantesco. Então, um sutil movimento de sobrancelhas seria suficiente para reconhecermos ali um grito humano de dor e angústia.

Noutra ponta, seria possível observar a singela manifestação de afeto – ou a agressiva e retumbante prova de satisfação e prazer existencial num apagado meio sorriso, com o canto da boca. Descontraído como um gole de vinho; porém arrebatador como um gole de vinho. Beber Giamatti é como brindar a vitalidade do veneno.

  • Entreatos: 12 filmes que marcaram a carreira

Entre outros grandes cartões de visita em seu currículo, são notáveis suas apresentações nos filmes Sideways (Payne, 2004), onde interpreta o escritor deprimido Miles Raymond numa pequena viagem pelas vinícolas da Califórnia e Anti-Herói Americano (Berman; Pulcini, 2003), no qual divide espaço com o escritor de quadrinhos Harvey Pekar em sua jornada cotidiana de esplendor melancólico.

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Paul Giamatti em Anti-Herói Americano

Em A Dama na Água (Shyamalan, 2006), Giamatti mergulha numa piscina para resgatar uma personagem fantástica, enquanto na verdade vemos um homem mergulhar em suas entranhas psicológicas para resgatar a si mesmo.

Temos também Sangue e Honra (English, 2011), em que Paul é o Rei inglês João Sem-Terra, em brilhante atuação, e onde sentimos o poder e a loucura, o ridículo e o nefasto escorrendo por suas veias num conflito histórico contra os barões no final da Idade Média.

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Paul Giamatti em A Dama na Água

É possível recordar também de outros como O Ilusionista (Burger, 2006), em que temos Giamatti como o chefe de polícia Walter Uhl; A Luta pela Esperança (Howard, 2005), filme para o qual foi indicado ao Oscar 2005 de Melhor Ator Coadjuvante; e Barney’s Version (Lewis, 2010), onde interpreta um problemático Barney Panofsky, papel pelo qual recebeu o Globo de Ouro 2011 de Melhor Ator. Além desses, Giamatti também interpretou um assassino de aluguel da máfia russa em O Espetacular Homem-Aranha 2 (Webb, 2014).

Quase a título de curiosidade, lembramos também das pequenas aparições de Paul Giamatti em ótimos filmes dos anos 90, como nos clássicos de Woody Allen: Poderosa Afrodite (1995), onde é uma espécie de caça-talentos de atores figurantes, e Desconstruindo Harry (1997), em que se apresenta como o Professor Abbot.

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Paul Giamatti em Sangue e Honra

Além de inúmeras outras, encontramos também passagens suas em Vida de Solteiro (Crowe, 1992), no qual tem brilhante atuação como figurante beijoqueiro, e O Show de Truman (Weir, 1998) como o bonachão diretor da sala de controle, que segue minuciosamente todos os passos da programação diária de Jim Carrey.

  • Ato Final (que também poderia se chamar Ato Falho): menção honrosa para sua contribuição simiesca no Planeta dos Macacos (2001) e a semelhança constrangedora de seu irmão Marcus Giamatti
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Marcus Giamatti

Poucos sabem, mas Paul Giamatti tem um irmão mais velho que também é ator, Marcus Giamatti, nascido em 1961. Marcus atuou em diversas séries de televisão, sendo mais reconhecido por seu trabalho em Judging Amy (1999-2005) no canal CBS. Ele também é reconhecido como um baixista qualificado, sendo frequentemente chamado a tocar em conjunto com várias bandas da área de Los Angeles.

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Paul Giamatti em Planeta dos Macacos

Para além das relações de parentesco, não há muito o que dizer quando temos Paul Giamatti recorrendo a uma série de macaquices num filme de Tim Burton (Planeta dos Macacos, 2001). Faltam-nos palavras para descrever com melhor precisão quando uma bela imagem pode traduzir rapidamente para o íntimo aquilo que é insondável ao intelecto. Apresente-se tal qual és, maremoto revolto de humanismo e profissionalismo, Sr. Paul. Até breve.

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3 comentários sobre “Paul Giamatti: a vida e a carreira do Anti-Herói Americano em 3 atos e 13 filmes

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