Jump Blues com Eddie Cleanhead Vinson: 7 passos de um careca para a música dos sonhos de sua playlist

Domingo, 26 de junho de 1988

Dó. Foi o que senti ao acordar hoje e perceber que meu toca-discos quebrou. Justo agora que estou me preparando para uma viagem onírica rumo a Califórnia, onde irei ao encontro de meu grande ídolo de Jump Blues: Eddie “Cleanhead” Vinson.

Embora já tenha 70 anos, o Sr. “Cabeça Limpa” continua me emocionando toda vez que o ouço. Recordo dos momentos tristes em que eu voltava para casa sozinho, após um dia inteiro de trabalho ao lado de minha inseparável máquina de escrever. Tudo que eu precisava era de um pouco de ânimo para seguir adiante.

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Eddie Cleanhead Vinson Back in Town

Quando a melancolia do cotidiano bloqueou meus pensamentos, sempre pude encontrar em Eddie Vinson uma espécie de cura, catabolizada em ondas sonoras up-tempo diretamente para o interior da alma. A fluência maldosa do Blues encontra a exuberância rítmica do Jazz.

PS: Assim que realizar meu sonho, providenciarei o conserto do aparelho.

  • Segunda-feira, 27 de junho de 1988

Ré. Manobrei meu Fiat 147 com satisfação ao sair da garagem, pois estava indo à agência de viagens, justamente para pegar meus tickets para a América. Procuro no rádio alguma nota que se assemelhe ao Jump Blues dos meus sonhos, mas nada feito, chapa. Sabe como é, estamos em plena década de 80 e nada mais é como era antes…

Já sinto falta daquele mundo que ficou para trás, nos anos 40 e 50, quando o sul dos Estados Unidos efervescia com grandes e genuínos artistas da música, como o majestoso B. B. King. Era um tempo confuso mas incrível, quando os temores da guerra batiam à porta e a emergência de novos ritmos tornava-se inevitável.

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Eddie Cleanhead Vinson e seu Saxofone

Começou muito antes disso, antes mesmo da amplitude elétrica proporcionada pelos uso dos microfones. Os cantores tinham que impor suas vozes: literalmente gritar para serem ouvidos em meio à uma difusão de instrumentos das Big Bands. Tudo eram anotações de um louco, cheias de som e fúria.

  • Terça-feira, 28 de junho de 1988

Mi. Talvez eu não devesse mencionar essa particularidade. Mas, sem mimimi: Eddie Cleanhead Vinson é careca. Meu ídolo musical perdeu seus cabelos ainda muito jovem e, de algum forma, sinto que irei pelo mesmo caminho.

Ontem, ao voltar da agência, fiquei horas olhando para o teto enquanto repousava deitado no sofá. Ficar em casa à noite sem minha vitrola custa caro. Fico pensando naquela turma de jazzistas e blueseiros encontrando-se sem preconceitos de credo, raça ou estilo.

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Vinil de Eddie Vinson

Era evidente que aquilo se tornaria uma grande alquimia musical, com pequenos grupos de cantores disputando espaço com grandes bandas, cobrando assim preços mais baratos para cantar e tocar nas casas de shows. Compositores de Blues rompendo as fronteiras sacrossantas das melodias, sobrepondo refrões manjados do Mississippi ao ímpeto carnavalesco de Nova Orleans.

PS: Cleanhead, o “Cabeça Limpa”, ou melhor, “Cabeça Pelada”, perdeu seus firmes penachos ao utilizar um produto químico indevido em seu couro cabeludo.

  • Quarta-feira, 29 de junho de 1988

Fá. Fui enfático durante o intervalo. Enquanto tomava um cafezinho com a Srta. Ella Holiday, da tipografia, fui interpelado por meu chefe, que me cobrou o deadline de uma determinada matéria sobre o RPM. Respondi afirmando que, no momento, tenho minha cabeça limpa apenas para o Jump Blues do saxofonista Cleanhead. Parem as rotativas.

As horas custam a passar tranquilas aqui na redação do Jornal Atonal. Não contenho a ansiedade ao lembrar que neste sábado, meu aniversário, encontrarei Eddie Cleanhead Vinson, o blues shouter mais adorável da minha biblioteca de LPs.

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Eddie Cleanhead Vinson – Cherry Red

Em casa, durante um cochilo, tive um sonho profético. O som de Cleanhead limpava minha mente. Eu estava em 2017 e escrevia Literatura com notas de Cultura Pop para um blog na internet. Não faço ideia do que seja isto, mas acho que a coisa tem futuro. Curiosamente eu era mais novo nesses devaneios do que sou agora. Detalhe: assim como Cleanhead, eu não tinha fiapos.

  • Quinta-feira, 30 de junho de 1988

Sol. Abri a janela às 7h e vi uma grande estrela amarela brilhar em meus olhos. Era a promessa de um grande encontro bluseiro na Rock my Mind, a renomada casa de Jazz em Santa Mônica. Como Eddie Cabeça Limpa Vinson foi parar na Califórnia?

Nem sei. A princípio ele deixou Houston, Texas para conquistar Nova Iorque – onde liderou um grupo musical com o jovem John Coltrane (que ainda não havia sido canonizado pela Igreja Ortodoxa Africana dos Estados Unidos).

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Etta James e Eddie Cleanhead Vinson – The Late Show

Já no fim de sua vida e sua carreira prolífica, Eddie Vinson mudou-se para a Costa Oeste, onde, em 1986, teve uma de suas apresentações ao vivo, desta vez com a renomada cantora Etta James, transformada em vinil. Seu último álbum. Este é um daqueles que faltam em minha modesta coleção.

PS: O dia terminou com uma ideia; nomear meu acervo particular de álbuns de música de “playlist”. Acho que essa tendência pega…

  • Sexta-feira, 1º de julho de 1988

Lá. Hoje à noite pego meu voo para São Paulo. De lá farei a conexão para L. A. Se tudo der certo será um incrível passeio, no qual não apenas irei pular ao ritmo do Jump Blues do Cabeça Limpa, como voltarei com material extraordinário para uma reportagem épica, com a qual humildemente espero receber o Prêmio Pulitzer.

O que a Srta. Ella Holiday, da tipografia, acharia disso? Estou pensando em convidá-la para vir até minha casa algum dia desses. Talvez ela se interesse por bons vinis dos anos 30. Preciso providenciar o conserto de meu toca-discos com urgência. Terá sido apenas cabelo na agulha?

PS: Tive mais uma vez aqueles pesadelos recorrentes com queda de cabelo. Acordei extremamente nervoso e tomei cerca de 10 xícaras de café. Depois que o café acabou resolvi comer a xícara. Com mostarda e pimenta.

  • Sábado, 2 de julho de 1988

Si. Se houvesse mesmo acontecido… Entretanto foi uma experiência das mais cabeludas. Assim posso classificar minha viagem etílica regada a miragens de Jump Blues na cabeça. Durante meu voo para a Califórnia, tudo parecia mágico, a realização de um sonho musical para um grande apreciador de cantores fora de moda.

Ao descer animadamente no Aeroporto Internacional de Los Angeles e passar com minhas bagagens por uma banca de revistas, fui surpreendido com o nefasto obituárioEddie (Cleanhead) Vinson, 70, Alto Saxophonist and Blues Singer, at the California Medical Center. Meu aniversário começa com despedida final de meu guru musical. Para este momento, só tenho o silêncio das lembranças de tudo que não vivi.

Jamais esquecerei de sua voz doce, suas composições limpas e suas letras criativas. “O pessoal me chama de Cabeça Limpa, porque minha cabeça é pelada no topo.  E toda semana eu poupo um dólar, toda vez que passo em frente ao barbeiro. Se não fosse por vocês mulheres, eu ainda teria meus cabelos cacheados. Mas fui abraçado, beijado e mimado até que meu cabelo fosse todo levado. Sim, eles me chamam de Cabeça Limpa, porque sou careca há muito tempo. Mas não preciso me preocupar, você terá a sua e, irmão, eu sei que terei a minha”.

PS: Descanse em paz, Cleanhead, meu Cabeça Pelada favorito. Agora compreendo tudo: você foi um sonho, mas viver sem Ella e sem minha playlist é um pesadelo. Tudo será devidamente colocado nos eixos assim que eu acordar.

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