4 filmes dramáticos de Woody Allen

Embora ele ainda não saiba, Woody Allen e eu temos uma história de relação íntima desde a infância. Lembro-me de assistir com certo deslumbramento ingênuo, nas madrugadas da Globo, aquele homem baixinho e magro, de óculos preto, cheio de angústias e irresoluções, promovendo um desfile de piadas auto-depreciativas e sabotando a vida amorosa e a religião em filmes que o tornaram um sucesso, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa ou Hannah e suas Irmãs.

Em geral, podemos dizer que os quase 50 filmes do prolífico escritor, roteirista, produtor e diretor nova-iorquino são uma espécie de comédia visual temperada com especiarias das ilhas da psicanálise, onde temos esse sujeito naturalmente engraçado tropeçando e derrubando coisas enquanto é confrontado com personagens que o desafiam a colocar em dúvida a sua própria razão de existir.

woody allen03Porém também encontramos alguns exemplares em sua obra que funcionam até certo ponto de forma autônoma, explorando o gênero dramático de forma mais sutil, eficaz e singela. Aqui não temos apelos essenciais à mise-en-scène exagerada ou gags típicas do cinema dos anos 1920 e 30, dos quais Allen sofreu enorme influência. Ao contrário, percebemos nos dramas apresentados uma condução comedida e, ao mesmo tempo, contundente, que faz esquecer, por algumas horas, que estamos diante do trabalho do pequeno judeu de voz engraçada das dublagens brasileiras.

Vamos então conferir 4 filmes dramáticos dirigidos por Woody Allen?

1 – INTERIORES
1978, 93 min.

Visitar o interior de uma enorme catedral gótica é como fazer um mergulho nas fossas submarinas do interior humano. A mente e o ego são entidades profundamente obscuras e, muitas vezes, insondáveis. Há tanto entulho lá embaixo e tanta vida aqui fora que o ser humanos parece estar entre essa eterna dança de Eros com Tânatos. O filme Interiores é como uma visita à Catedral de São Patrício, em Nova Iorque, enquanto o sol se põe: a arquitetura, o design, o amplo salão harmonizam com o silêncio e o misticismo dos frequentadores do local.

Este é provavelmente o filme em que Allen mais bebeu na fonte de Ingmar Bergman, reproduzindo maneirismos da carreira do diretor sueco, fato que causou até mesmo algum constrangimento à época do lançamento do longa-metragem americano. No entanto a história de Eve, uma designer de interiores deixada pelo marido, supera pequenas deficiências em favor de um rigor estético impecável. O interior das mulheres de Allen grita por socorro nesta obra que merece ser contemplada com respeito e penitência, como se estivéssemos a observar o teto da Capela Sistina.

2 – MATCH POINT
2005, 124 min.

Este é aquele tipo de filme que te deixa, de alguma forma, boquiaberto desde o início. A música “Una Furtiva Lagrima”, gravada em 1904 por Enrico Caruso, começa a embalar sua alma durante os créditos, com o típico fundo preto e letreiro branco dos filmes de Allen, e se estende durante a narração introdutória, onde vemos uma bola de tênis em movimento para o lado e para o outro com a câmera fixa sobre a rede que divide a quadra. Até que a imagem congela e não sabemos mais o que pode acontecer com a bola, que flutua imóvel no centro do quadro.

Os personagens e cenários de Match Point de algum modo assemelham-se a este jogo de probabilidades, competição, apostas, golpes de sorte e muito azar. Para subir os degraus da decadente aristocracia inglesa, um professor de tênis namora a irmã de um de seus alunos milionários. A amizade e a influência detém importante papel na construção de sua ascensão nos braços da família rica. Porém, o que acontecerá quando Chris Wilton descobrir que sua cunhada e amante está gravida? Culpa, raiva, infortúnio, paixão e desgraça às vezes são necessários para alcançar um bom posto nas engrenagens do tecido social.

woody allen043 – O SONHO DE CASSANDRA
2007, 108 min.

Que terrível drama conhecer de antemão as tragédias futuras e, ao mesmo tempo, não ser levado a sério. Os irmãos Terry e Ian são jovens e de família humilde, porém sonham chegar em algum lugar na vida. Ian tenta investir no mercado imobiliário, porém tem poucos recursos, enquanto Terry aposta todas as suas fichas na jogatina, esperando ansiosamente pelo lance que irá mudar todo seu destino. Um primeiro milagre parece acontecer quando Terry ganha na loteria dinheiro suficiente para comprar um pequeno barco, o qual os irmãos batizam de Sonho de Cassandra. O segundo milagre surge quando o tio rico dos dois irmãos se dispõe a lhes ajudar financeiramente, porém em troca de um pedido abominável: matar um desafeto que poderia comprometer sua vida.

No entanto, é a vida de seus dois sobrinhos que parece ficar comprometida quando eles aceitam o pedido e resolvem praticar o crime sem deixar rastros. Ian é um homem seguro e racional, procurando seguir normalmente com seus projetos e sonhos. Mas Terry é consumido pela culpa, refugiando-se no álcool e cogitando entregar-se à polícia. Como o Raskólnikov de Dostoiévski, o irmão jogador não encontra remédio para curar sua dor psíquica e moral, a não ser aquele oferecido pela auto-punição. Enquanto isto, Ian tem outros planos. Note que, pelo título do barco e do filme, a tragédia parece ser anunciada desde o início da trama, sem o devido crédito dos personagens, envoltos num cenário mágico captado pela câmera de Woody Allen.

4 – HOMEM IRRACIONAL
2015, 96 min.

woody allen02Lá no fundo, entre os vales e planaltos da vida cotidiana, o homem altivo é na verdade um rato do deserto, um homem comum, com frustrações mundanas. Os aborrecimentos do dia a dia, a certa altura da vida parecem enfadonhos. Mas temos também belas pinturas, mesmo entre os mais comuns de nós, nas quais muitas vezes somos personagens submersos.

Uma paisagem bucólica rumo a um sítio distante; um pôr-do-sol melancólico numa tarde fria sobre as rochas da praia. Há algum espaço, ou palco, adequado para que os personagens da vida façam, ao mesmo tempo, o papel de grandes pensadores e humanos medíocres? Há aqueles personagens, entretanto, que vagam como lobos solitários; homens de vasta leitura, que preferem viver isolados enquanto divagam sobre a pequenez terráquea diante da imensidão cósmica, repleta de vazio e sonhos perdidos. Nada de filhos, hipoteca, supermercado e contas a pagar. Só a contemplação e a filosofia servem de refúgio.

Um homem razoável provavelmente lhe falaria coisas sensatas, objetivas; iria direto ao ponto, lhe contaria sobre tal filme; faria uma resenha bem estruturada, com introdução, desenvolvimento e conclusão; teceria um artigo qualificado e publicado na revista Modern Man contendo curiosidades picantes acerca da vida íntima do diretor de cinema Woody Allen. Porém, um homem irracional apenas escreveria uma prosa verborrágica sem sentido. Pense nisto.

***

woodyTodos as quatro películas, além de serem belos exemplos de obras de arte bem resolvidas e influentes, também contam com a atuação primorosa de grandes profissionais como Scarlett Johansson, Jonathan Rhys Meyer, Ewan McGregor, Colin Farrell, Diane Keaton, Joaquin Phoenix e Emma Stone. Como se não fosse suficiente o pincel de Woody Allen na composição de seus quadros – lembrando em certos momentos as paisagens pós-impressionistas de Van Gogh ou as obras românticas de Caspar David Friedrich – encontramos também a interpretação segura de tão belos astros do cinema mundial, ajudando a tornar esses filmes pequenos clássicos do cinema, dignos de serem revistos e admirados por décadas.

Anúncios

Um comentário sobre “4 filmes dramáticos de Woody Allen

  1. Pingback: Por que você gostaria de ser amigo de Paul Giamatti? Impressões que não te contei antes sobre a vida e a carreira do Anti-Herói Americano em 3 atos e 13 filmes | Não me Livro desse Blog

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s