Sangue depois da livraria

Um conto de Tiago Masutti
Todos os Direitos Reservados – Obra Registrada

Cada escolha que fazemos tem um peso determinante em nossas vidas. Assim Gustavo vinha pensando enquanto caminhava para a livraria. Esse caminho havia se tornado habitual de uns tempos para cá. Saía do seu emprego como sub-gerente no supermercado às sete horas da noite e, flanando, inevitavelmente acabava parado sob as belas prateleiras decoradas com uma infinidade de livros, sobre os mais diversos assuntos.O que precisamente levou Gustavo a pensar sobre o peso das decisões é uma incógnita. O mais provável é que seu chefe tenha lhe repreendido por algum fato corriqueiro de trabalho, e tal era sua sensibilidade que passou a questionar a si mesmo, sua capacidade de gerenciamento, sua escolha profissional aos 17 anos, a faculdade de administração… Tudo isso, teriam sido decisões acertadas, que faziam algum sentido, que se encaixavam em seu estilo de vida, suas ambições – ou a falta de ambições?

Toda essa dúvida tornava-se como um mantra, ou talvez um pequeno fantasma lhe sussurrando coisas ao pé do ouvido, enquanto fazia seu roteiro comum do início de noite. Lá, na livraria, parecia encontrar uma certa paz escondida no meio de tantas outras opções de vida nas quais, momentaneamente, poderia se deixar perder dentro daqueles livros, até que as luzes do estabelecimento começassem a se apagar e repentinamente fosse acordado de seus sonhos.

Absorto nesses pensamentos ora opressivos, ora libertadores, Gustavo parou em frente a vitrine da livraria, como era costume antes de entrar, e ficou observando uma coleção que ainda não tinha visto. E ali mesmo, outro peso foi lhe tomando os sentidos, mas desta vez um peso mais prosaico que sublime – a fome. Hoje, por acaso, ele havia esquecido de fazer seu lanche de final de tarde no supermercado, tão grande era a aflição por conta de seus questionamentos existenciais. Na verdade, é impreciso dizer se foi um esquecimento de fato, ou simplesmente uma escolha. É possível que Gustavo quisesse comer, mas tenha caído num desânimo triste que o impedia até mesmo de se alimentar naquele momento.

candle-1646765_1280Mas agora, parado em frente a vitrine, não pode mais deixar para resolver esse problema depois – era preciso comer agora, qualquer coisa. Assim, deixou seu caminho natural para dentro da livraria e seguiu adiante pela calçada, até alcançar uma dessas lojas que vendem chocolates chiques, com os mais variados sabores, recheios, aromas e embrulhos. Como não queria perder tempo pensando no que comer, por ali mesmo ficou.

Ao entrar na pequena loja de chocolates, Gustavo se deparou com uma vendedora bem nova, de uniforme, com um olhar azul e um tanto perdido no chão. Ela estava sozinha atrás do balcão, provavelmente sentada num pequeno banco de madeira, encostada na parede. Gustavo a cumprimentou, mas ela não respondeu de uma maneira normal. Nem mesmo levantou seu olhar para o cliente recém chegado, balbuciando algumas coisas ininteligíveis.

Gustavo, um pouco confuso, repetiu o “boa noite” inicial, esperando ouvir algo mais sensato de volta por parte da atendente. No entanto, suas palavras continuavam confusas. Mas agora lhe pareceu que no final de sua resposta havia um certo “socorro”, muito apagado, quase que morrendo junto com a sonoridade pálida.

Um pedido de socorro, assim no meio de uma situação simples como chegar a uma loja e esperar por atendimento, parece demorar algum tempo para ser bem compreendido por quem o ouve. E assim Gustavo permaneceu alguns instantes em silêncio, apenas observando aquela garota bonita e estranha, sem saber bem o que fazer.

Até que instintivamente resolveu se aproximar do balcão para verificar um pouco melhor essa cena improvável que estava vivenciando. Antes de chegar perto dele, podia ver apenas a garota de seus ombros para cima, quem sabe havia algo a mais nesse quadro que não poderia ser visto num primeiro momento…

Sangue. Muito sangue e uma faca.

As mãos da garota estavam cobertas de sangue, e também seu uniforme de trabalho. Uma faca grande e afiada estava perdida sobre seu colo. Sob seus pés, estendido no chão, o corpo de um homem alto, forte, bem vestido, ensanguentado e… morto.

Repentinamente a atendente começou a chorar desesperada, levando as mãos vermelhas ao rosto. Os pedidos de ajuda agora chegavam mais cristalinos aos ouvidos de Gustavo e seu olhar fixo em toda a situação resolveu se aproximar ainda mais dela.

Ele deu a volta no balcão e foi ao encontro da garota, que o abraçou com força e começou a chorar com mais intensidade. Ela quase que involuntariamente começou a lhe pedir desculpas, soluçando, tremendo, com um horror melancólico nos olhos que parecia um grande oceano sem fim.

Gustavo começou a lhe pedir calma, que tudo iria ficar bem, que estava ali ao seu lado e nada de mal iria lhe acontecer. O coração dele batia num ritmo insano, como o de um garoto ao ver sua paixão de escola se aproximar.

mulher-sensual-livros-bibliotecaEnquanto olhava para o chão tentando entender o que havia acontecido ali antes de sua chegada, e retornava o olhar para o rosto perdido da atendente, Gustavo tentou se lembrar do por que estava ali naquele momento, numa situação tão inesperada. Não era para ser assim. Mas era…

Subitamente, uma alegria soturna invadiu sua alma ao ouvir a pergunta de sua vida – Fica comigo?

– Sempre…

Nesse instante, poderíamos ver o rosto de Gustavo encostado no dela, sujo de sangue, suas mãos entrelaçando seu corpo fino e delicado num abraço profundo, e um brilho perdido no olhar que alguém poderia passar anos tentando decifrar – mas jamais compreenderia!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s