Neve em Florianópolis: um conto de inverno

Um conto de Tiago Masutti
Todos os Direitos Reservados – Obra Registrada

Prólogo: 

23 de julho de 2013. Num raríssimo momento de beleza sublime, a delicada flor desabrochou, exalando seu aroma alvo pela primeira e última vez…

Primeiro Ato:

Florianópolis. Seis horas da manhã. Daniel vinha dirigindo velozmente pela ponte Pedro Ivo, em direção ao centro, como um louco. O ar gelado do final de julho penetrava com força dentro do veículo, congelando sua alma. A mente escorria para lugares longínquos, em espirais cada vez mais acentuadas. Um redemoinho de sensações confusas, amarguradas, culpadas. No aparelho de som, Bach, suíte para orquestra número 3, ária. A todo volume. A droga que lhe caía no cérebro. A droga do seu finado casamento. Aquela droga – maldita droga daquela flor.

Seis meses antes. O cartório, Valquíria com o semblante sombrio. Daniel assina os documentos do divórcio. Ela se despede secamente, dolorosamente, com profunda tristeza nos olhos.

Como o amor pode definhar aos poucos, assim, como um velho moribundo, mesmo quando há tanta vida dentro da alma?

Um amor divino, presenciado apenas por poucos privilegiados que conviviam com o casal. Uma jovem escritora sensível em busca do belo, do êxtase artístico, sempre preocupada com a estética de cada momento, juntando palavras como quem faz uma oração. Um advogado desleixado, que não sabe dar nó em gravatas, que confunde os tribunais, mas é totalmente apaixonado por sua bela adormecida. Valquíria e Daniel. Assim os dois marcaram com canivete na árvore do jardim de casa.

Seis anos atrás. No florido jardim, ela plantou uma espécie de planta extraordinária, que dá uma linda flor – apenas uma única e solitária flor, em toda sua existência, murchando poucas horas depois de vir ao mundo. A ária de Bach faz as lágrimas de Daniel correrem mais intensamente. As recordações torturam como nunca. Por quê, Daniel, por quê?

Por que fui esquecer, disso, logo disso, a coisa mais importante no mundo para ela?

Valquíria aguardava o desabrochar daquela flor, daquelas pétalas brancas, com muita ansiedade, ao longo dos anos. Daniel ficara responsável por avisa-la. Tudo que deveria fazer era acordar sua esposa, se pela manhã percebesse algo diferente com o vistoso vegetal. O falecido pai de Valquíria havia lhe dado a planta de presente, com um único aviso:

– A flor irá desabrochar numa manhã fria.

Mas Valquíria escrevia e escrevia, até tarde da noite. Pela manhã, dormia como um anjo, e detestava ser acordada cedo. Daniel saía para trabalhar na ponta dos pés, fazia de tudo para não acordar sua amada. Então sua tarefa consistia em algo simples. Todos os dias de manhã, Daniel olhava a bela flor dormindo. E deveria correr para avisá-la, se alguma pétala estivesse desabrochando. Valquíria exigia ser acordada se (e somente se) singelas pétalas brancas nascessem e morressem, uma única vez. Em virtude do alerta do pai, a atenção deveria ser maior, sobretudo, no inverno.

Segundo Ato:

Daniel acelera cada vez mais, atormentado por remorsos. Bach acaricia sua mente como a cocaína embala seu fim de noite. Todos os esquecimentos, todas as faltas, as imprudências. Tudo na delicada relação que havia estragado.

Aquela vez que pisei na bola. Aquela outra vez que caguei com tudo. E, finalmente, a derradeira vez, em que joguei uma bomba atômica em nosso amor. Preciso vê-la.

Daniel precisa recuperá-la.

Enquanto sobe o Morro da Cruz, a caminho da fina casa em que vivia com Valquíria na região central da Ilha de Santa Catarina, distanciando-se mais e mais do velho apartamento alugado em que agora vegeta no bairro Estreito, o pobre advogado dialoga com fantasmas, expulsa os demônios da famigerada manhã, a cereja do bolo na ruína de seu casamento: a manhã, como tantas outras, em que esquecera de observar a planta no jardim, antes de sair para o escritório, para verificar se a flor estava nascendo. E, nesse lindo e triste dia, as pétalas alvas, o pólen amarelo, o caulezinho verde… todos os sutis elementos que compunham a flor foram gentilmente tocados pelo frio catarinense e desnudaram-se para o mundo, diante dos olhos de…

Ninguém.

Por volta do meio-dia, Valquíria acorda sozinha. No jardim, vê a dedicação e o anseio de anos murcharem a olhos vistos, a beleza perder a cor, o encanto esvair sua alma em singelas partes da flor morta que caía ao chão, juntamente com seu casamento.

Agora, julho de 2013, Daniel sobe as curvas do morro com pressa, corre, como nunca correra atrás de clientes, mas tenta desesperadamente salvar algo de bonito que ainda resta em si. Algo que ainda espera achar vivo no peito de Valquíria.

Os primeiros raios de sol parecem querer agasalhar o céu ainda estrelado na fria manhã. Daniel procura, alucinado, o número de seu antigo lar. 2013, 2013… Quando fatalmente encontra, pára o carro abruptamente sobre a calçada. Abre a porta, deixando fluir para o ambiente a maravilhosa sinfonia das caixas de som, toda a sagrada harmonia da música barroca de Bach.

Ele sabe que é uma imprudência, uma insanidade – mais uma – acordar sua ex-esposa a esta hora da manhã, completamente cheirado. Acordá-la agora só a deixaria extremamente irritada, levando em consideração tudo que houve. Mas ele insiste. Não quer saber, não quer pensar. Toca a campainha, com medo, pavor. Chora. Ajoelha-se. Grita. Valquíria. Seu rosto angelical é visto abrindo a cortina da janela do quarto.

Ela desce lentamente, gentilmente, as escadas do jardim que levam até o portão da casa. Parece flutuar, com os olhos fixos no horizonte. Uma leve fumaça, causada pelo ar frio, sai de sua boca. Um cobertor branco envolve seus ombros com ternura.

Terá ficado muito brava? Irá me expulsar daqui? – Eu te amo, Valquíria.

– Meu anjo. Eu também te amo, Daniel.

Ato Final:

O Cambirela. A Serra do Tabuleiro. Os morros que envolvem a Grande Florianópolis também se cobrem de branco. A beleza está posta diante de Valquíria, que contempla pela primeira, rara e única vez a catedral de neve sobre a baía sul. Acordada na hora exata e apropriada, ela encontra o sublime e o êxtase, finalmente, dos flocos de gelo nas serras próximas a capital.

Veja, Valquíria, veja bem. Vim lhe trazer o belo, o divino. Vim tentar a redenção.

Daniel não é mau advogado, afinal.

Os dois santos choram abraçados sob a igreja celeste. Seu cobertor branco agasalha Daniel. A neve emoldura a alma da cidade. Bach aquece a radiante aurora sobre o mar azul. Enquanto as serras geladas lhes contemplam, Valquíria o perdoa.

Epílogo:

Florianópolis. Sete horas da manhã. 23 de julho de 2013Num raríssimo momento de beleza sublime, a delicada flor desabrochou, exalando seu aroma alvo pela primeira e última vez…

2013-04

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