Seu filho ou companheiro é ausente? Cuidado, ele pode ser um escritor

Quem escreve tem sempre um mundo à parte na cabeça. Você já ouviu a expressão “viver no mundo da lua”? Isto significa que a pessoa está de corpo presente, porém com a mente ausente. Geralmente escritores são um pouquinho assim, é uma característica natural de sua personalidade. Grandes histórias como As Crônicas de Gelo e Fogo, Cem Anos de Solidão ou Duna jamais seriam escritas por gente essencialmente preocupada com oportunidades imobiliárias e impostos municipais.

De certa forma, perder-se de si mesmo e desbravar mundos nunca antes sonhados pelos mortais é o ofício de todo bom escritor. Menciono a palavra mortais porque quem não escreve está condenado a viver somente por 70 ou 90 anos. Porém um escritor relevante, quando torna-se mestre em sua arte e alcança algum reconhecimento público, vive para sempre. Quem algum dia esquecerá de William Shakespeare, Honoré de Balzac, J. K. Rowling, Machado de Assis, Mary Shelley ou James Joyce?

Esses nomes permanecerão por séculos vivos na memória coletiva dos que passam anônimos pela Terra, geração após geração, como a Esfinge Gizé ou os Moais da Ilha de Páscoa. Quantos enigmas perdidos a serem eternamente redescobertos na esplendorosa literatura de Dostoiévski, Nelson Rodrigues, Cruz e Souza, Stephen King, Agatha Christie? Os aplicativos para smartphones vem e vão e, em questão de poucos anos, tornam-se meros espectros a nos atormentar com a mesma frase sinistra: -“Você está ficando velho, você está velho”…

Porém os grandes autores nos revigoram, nos fazem beber sempre da fonte da saúde, da vida e dos mundos eternos, pois inacessíveis à corrupção e à desgraça da matéria. Jamais civilização alguma deverá esquecer das disputas políticas em Westeros, do amor impossível de Romeu e Julieta, da especiaria Melange, das desventuras da família Buendía, da menina dos olhos de ouro, das artimanhas da Sonserina, do alienista que se reconhece como louco, do prometeu moderno ou da odisseia de Leopold Bloom…

books02Quem haverá de esquecer da indecência suburbana carioca da Engraçadinha, dos tormentos psíquicos de Raskólnikov, do lirismo simbólico do acrobata da dor, da insanidade doméstica de Jack Torrance ou das mortes na ilha deserta do casal U. N. Owen? Estes personagens literários celebram a vida conosco mesmo após a morte de seus autores, são seus filhos, sua prole, seu legado. Seus mundos inventados estão sempre cheios de vigor e jamais tornam-se obsoletos ou desatualizados. Hoje tenho uma vaga lembrança de como era participar de uma comunidade no Orkut. Talvez em outros 10 anos ninguém nem saiba o que é isso.

Mas alguém algum dia poderá esquecer dos Jardins da Babilônia, do Farol de Alexandria ou do Colosso de Rodes? Assim como as maravilhas do mundo antigo, as memórias deixadas pelos grandes escritores da humanidade serão sempre inoxidáveis aos olhos do tempo sentimental. Desabam as estruturas físicas, tombam os homens e as mulheres, mas um grande autor resistirá bravamente à passagem dos milênios, tornando-se fantástica figura mitológica como o Minotauro ou a Medusa.

Portanto, façamos um mísero apelo, se não for pedir demais: deixem os futuros escritores, os pretensos escritores, os metidos a escritores, os diletantes e os sonhadores executarem o seu métier com o devido respeito e sem serem importunados, pelos filhos de Chronos! Não se preocupem com sua ausência física, pois suas mentes estão vagando em mundos extremamente mágicos para que se preocupem com as contas do mês ou as compras do mercado. Já que os escritores foram expulsos de seu ambiente mundano de trabalho (os escritórios), então deixemos as tarefas inglórias do cotidiano aos escravos pós-modernos que tomaram de assalto, como bárbaros, o local histórico de ofício dos escribas.

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5 comentários sobre “Seu filho ou companheiro é ausente? Cuidado, ele pode ser um escritor

  1. Sim, nós escritores estamos com uma parte desconectada do cérebro ao mundo. Porém, isso é uma das coisas que melhor podem acontecer com uma pessoa. Ser escritor é a necessidade em escrita do autor. Abraços… pedacosdaminhavidablog.wordpress.com

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