Tom Taylor é O Inescrito

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Divulgação Panini Comics

Narrar histórias é uma arte. Não basta apenas conhecer a trama, os personagens ou o palco da narrativa. O mais importante de tudo é saber contar. Podemos contar lindas histórias sobre um novelo de lã, que vai desenrolando mundos estranhos de forma mágica, nas garras de um tigre das neves que mora nos bosques do senhor do castelo. É possível, quem sabe, narrar toda a história da Terra como um drama simiesco. Ou, se for mal contada, até mesmo a narração da Ilíada e a Odisseia se tornarão um momento enfadonho.

O Inescrito é uma história bem contada. Esta série em quadrinhos do selo Vertigo, lançada no Brasil pela Panini Comics, fala justamente da arte de contar histórias. Seu personagem principal é Tom Taylor, filho de um famoso escritor que lançou toda uma série de livros com um personagem principal e aprendiz de feiticeiro chamado Tommy Taylor. Será que o pai de Tom Taylor teve alguma inspiração em seu filho real para dar luz ao seu filho narrado? Talvez os autores de O Inescrito tenham copiado alguma obra literária terrena de sucesso?

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Panini Comics

Impossível ler o Inescrito e não mergulhar num universo que fala de si mesmo, numa piscina de águas profundas onde a metalinguagem preenche 50 mil litros de água criativa. Respire fundo, desça até a profundidade máxima. Sem perder o fôlego, você consegue, nade mais e mais. Tente encostar seus dedos no fundo. Não há fundo.

Tudo que temos no fundo de O Inescrito é um imenso espelho onde Tom Taylor vê a si mesmo como produto fantasmagórico da mente paterna. Seu pai sumiu do mapa da história, e todas as armas que deixou a Tom para este enfrentar o mundo “real” foi o legado de Tommy.

Tommy Taylor poderia muito bem ser o irmão inescrito de Tom, num universo invertido. Tom Taylor foi escrito e inventado aqui, no planeta Terra, pelas mãos de Mike Carey e Peter Gross. De forma que tanto Tom quanto Tommy são personagens. Tom é reverenciado por uma legião de fãs na trama como a encarnação viva do personagem Tommy. O Inescrito é reverenciado aqui na Terra como uma obra prima literária.

O desconforto sentido por Tom Taylor com a situação de conto de fadas em que seu pai lhe colocou é o mesmo sentido por nós ao olharmos para o céu noturno. Há uma imensidão de tempo e espaço lá fora e não podemos lidar com a realidade última da vida senão através dos óculos de nossa mente, sempre subjetiva, sempre narrativa, sempre presa aos grilhões do corpo biológico. E se pudéssemos nos libertar das amarras do corpo e deixar a fluência mental voar para tão longe quanto desejamos?

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Panini Comics

Quantos de nós não sonhamos acordados com um mundo fantasioso, em que somos estrelas perdidas numa história inventada em redes sociais e diários pessoais? Todos somos grandes protagonistas e, no entanto, não passamos de meros figurantes sob o olhar de bilhões de seres humanos. E quantas mentes conscientes, porém incapazes de falar, podemos encontrar nos mais variados animais de nosso mundo? Se um gato pudesse falar, quantas boas histórias não miaria?

Em o Inescrito temos até mesmo um gato alado, espécie de esfinge a nos devorar a todo o minuto com a dúvida: você é uma pessoa real lendo uma história fictícia, ou é um personagem fictício lendo uma história real? O que há depois do espelho e nos limites dele? O que existe entre a mente de um escritor e a vida complexa de seus personagens?

Encontramos também situações paradigmas da narração de boas histórias: a dúvida existencial, o vilão-vampiro, a figura do mentor ausente, uma mansão inspiradora e assustadora. Inúmeras passagens escritas em O Inescrito contam histórias “reais” de personagens e livros famosos aqui mesmo na Terra. Ao final, nãos sabemos mais se estamos lendo uma história, ou se somos também um personagem. Possivelmente estamos abrindo o portal onírico que nos leva a todas as boas histórias, onde a caneta e os pincéis do autor são tocados pelos personagens distantes do outro lado da colina literária.

Como leitor, não é simples dar boa interpretação com o que estamos lidando em O Inescrito. Em determinados momentos parece que caímos na toca do coelho e estamos lá com Tom Taylor, em busca de nossa essência literária. Quem somos nós no mundo escrito? Meros leitores ou grandes produtores de sentidos?

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Panini Comics

Quem sou eu senão personagem inescrito, ainda mal rascunhado na mente de um Deus extravagante, dotado de uma caneta mágica onde cada gesto e movimento meu já é deliberadamente conhecido, muito antes de mim mesmo? E todos meus pensamentos, e todos os passos que não dei, as escolhas que deixei para trás, os amores que não cultivei – tudo isso foi algum dia escrito pelo narrador de minha história e jogado em seu lixeiro celeste como algo de má qualidade lírica?

Estamos todos nós tentando alcançar esse narrador divino no alto dos céus, enquanto sua mão criadora está adormecida no fundo de uma piscina literária tentando nos alcançar, afogando-se em sua própria essência de histórias e significados ocultos. Literatura e Religião se confundem quando somos dotados de uma mente meio fictícia, meio real. Somos todos mestiços, escritos e inescritos, rascunhados e relançados em milhares de edições diferentes, em mundos e editoras distintas.

Toda essa prosa tem o sentido único de narrar isto: O Inescrito é possivelmente um grande exemplo do melhor da literatura e do desenho que podemos imaginar. E a verdade é uma só: Tom Taylor é Tommy Taylor, que são na verdade as mentes de Mike Carey e Peter Gross, que serão lidas por inúmeros amantes de quadrinhos e, quem sabe, futuros contadores e escritores de histórias inspiradas em O Inescrito. Como disse Balzac: os extremos se tocam.

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