O Gabinete do Capitão K.

Um conto de Tiago Masutti
Todos os Direitos Reservados – Obra Registrada

– ‘Senhor, a aeronave vinda da colônia está prestes a aterrissar. Aparentemente, há apenas um tripulante em seu interior. Tentamos fazer contato de todas as maneiras, inclusive com ameaça de interceptação destrutiva. Não conseguimos resposta’, disse, apreensivo, o operador do radar, apertado em seu uniforme preto.
– ‘Sabem quem é o sujeito? É antártico nativo ou cidadão da Liga?’. O capitão K., magro, alto e calvo, de semblante fechado, em pé ao lado do operador, está coberto de insígnias militares e tem seu rosto iluminado pela luz fria da tela de comando. Pontos coloridos piscam num canto e no outro do aparelho.
– ‘Pelo número de registro visual em nosso sistema, trata-se de James Skull, 30 anos, um ex-cidadão da Liga, agora banido. Era farmacêutico, foi sentenciado por adulterar medicamentos em benefício próprio. Não sabemos exatamente que tipo de atividade pratica na colônia. Entretanto, a aeronave pertence a empresa Postavki Rudy, da área de transporte de minérios, o que permite supor que seja um empregado fugitivo das minas’.
O operador, sentado em uma cadeira de couro, virou-se para o capitão e olhou-o nos olhos, aguardando uma ordem. Alguns segundos se passaram, sem qualquer palavra. Até que, ousadamente, questionou:
– ‘A ordem, senhor?’
– ‘Deixem-no aterrissar. Quero ficar frente a frente com esse exilado, saber de onde tirou essa ideia de desafiar as súmulas parlamentares, e o que o trouxe de volta até aqui’, respondeu o capitão K., dando meia volta em direção à saída.
– ‘E se ele estiver armado… ou contaminado?’, disse o operador para o capitão, que já estava de costas.
– ‘Francamente, soldado. Você também acredita na fiebre antártica?’, ele respondeu, parando subitamente.
– ‘Apenas ouvi comentários’, disse o operador, contrariado.
– ‘Não se preocupe. Ele será revistado e deixado em quarentena’.
O capitão K. pareceu desapontado, imaginando que, quando era jovem, um soldado jamais argumentaria com seu superior assim, expondo suas inseguranças de maneira tão aberta. Mas isso fora antes da instituição da glasnost nas forças armadas. Agora, qualquer militar de baixa patente era livre para expressar suas opiniões, qualquer desterrado se achava no direito de ignorar ordens e abandornar seu exílio compulsório. Um boato infundado espalhava-se como fogo rasteiro através das redes de telecomunicações, e pequenos incidentes ou motins tornavam-se logo um vírus doentio na imaginação dos cidadãos. Modernidades…
Médico de formação, o capitão K. considerava uma ficção a ideia propagada, desde sua juventude nos bancos da faculdade, de que o derretimento do manto polar poderia ativar virus pré-históricos que estariam congelados há milhões de anos, e para os quais o ser humano não teria qualquer defesa. ‘Algo assim só poderia ocorrer há trinta anos, quando começamos, sem experiência nem as potentes vacinas de varredura atuais’, raciocinou o doutor K. Nesses pensamentos rosados, cheios de saudade do passado idílico que o encantava, foi caminhando vagarosamente até a estação de desembarque.
Da aeronave de carregamento de minérios, desceu James Skull, devidamente escoltado por soldados da base de fronteira austral. Levado até a sala de quarentena, foi observado de longe pelo Capitão K., que ainda permanecia intrigado e exaltado com esse tipo de rebeldia. Iluminado pelo sol poente, procurou sair logo da exposição direta ao ar livre, acompanhou o movimento dos subordinados e foi, em seguida, até a quarentena, para ver que tipo de informação conseguiria extrair do tripulante proscrito e solitário. Alguns minutos depois, encontramos os dois, frente a frente, em pé, separados por uma grossa parede de vidro hermeticamente blindado.
– ‘Estou dizendo a verdade! Senhor, eu lhe garanto, não pousaria aqui se não fosse um caso urgente e catastrófico, de vida ou morte! A inação agora só causará a contaminação de mais e mais pessoas!’
– ‘De degredados e vagabundos, o senhor quer dizer, não é mesmo… Skull, é isso?’
– ‘Por favor, Capitão. Não temos tempo para discutir política neste momento! Estamos falando de seres humanos! De ética! Estão sendo devorados vivos por uma entidade estranha, provavelmente alienígena… E que, certamente, se ninguém da Liga tomar nenhuma atitude, todos na Terra serão mortos!’
– ‘Isso tudo está acontecendo sem que nenhum alerta seja emitido, sem que qualquer sinal de socorro seja enviado para a Liga?’, ponderou o capitão, com ar de deboche. ‘De qualquer forma, você tem razão. Não vou discutir com você. Há uma pequena chance de você estar falando a verdade. Mas, sabe… ela é tão remota que não vou arriscar minha reputação confiando em seu discurso. Vamos averiguar tudo com calma. Amanhã você será informado do resultado de nossa investigação e de seu processo’.
– ‘Que processo?’, questionou, com ainda mais temor nos olhos, James Skull.
– ‘Como você tem ciência, o espaço aéreo da Liga foi violado por sua aeronave que, além de roubada, transportava um exilado de volta ao sistema ocidental. Todo exilado sabe que não pode retornar, sob pena de morte’.
– ‘Sim. Eu sei, capitão’, respondeu Skull, desolado, quase chorando. ‘Eu sei que voltei sem permissão, mas eu precisava! Eu tive que voltar, fui obrigado pelas circunstâncias! Toda Antártida está em perigo, e provavelmente o planeta inteiro!’, bradou de repente, inconformado com a falta de compreensão das autoridades. Em seu íntimo, imaginava como era iníqua a jurisprudência da Liga, que distinguia entre seres humanos de primeira linha, cidadãos do sistema ocidental com todos os direitos civis e o paradigma do pursuit of happiness; e os de segunda classe, banidos do sistema ocidental para o sul do paralelo 66, meras peças de uma engrenagem enferrujada, dejetos de uma civilização em declínio, abandonados à própria sorte. Nisso eles nunca pensavam, os fantoches do parlamento: que o paradigma de sua suposta coletivização do bem-estar já tinha seus escolhidos. E Skull não era um deles.
– ‘Fique tranquilo, e procure descansar, senhor Skull. Estamos enviando agora mesmo um de nossos agentes para verificar a situação na colônia penal. Amanhã lhe daremos notícias’.
As luzes se apagaram, e James Skull ficou ali, parado junto ao vidro isolante, com a cabeça entre as mãos, enquanto o capitão K. deu meia volta e saiu, perguntando-se inconscientemente se Skull não estaria, quem sabe… Não. Impossível.
Quando os primeiros raios de sol anunciaram o novo dia, Skull foi acordado por um aviso sonoro. Ele deveria se arrumar, tomar café da manhã e aguardar. Cerca de uma hora mais tarde, a comissão julgadora o observava atrás do vidro blindado. Abatido, inconformado, ele ouviu tudo atentamente, sem que nada pudesse fazer para desagravar sua situação. As autoridades da guarda de fronteira enviaram, madrugada adentro, um dos agentes do parlamento, o civil Daniel Aby, para fazer uma inspeção superficial na colônia pessoalmente. Segundo seu relatório, tudo na Antártida andava na mais absoluta regularidade, com todos os serviços operacionais, e circulação de pessoas e minérios dentro do normal.
Nada mais podia ser feito para que Skull se reabilitasse. O inquérito e todas as diligências estavam concluídos. Sem direito a qualquer pronunciamento perante a comissão, o julgamento teve início. De maneira inquisitória, a própria comissão fez a acusação, recebeu a denúncia, investigou e pronunciou a sentença: morte por envenenamento. Ele foi primeiramente sedado por gases disparados dentro da câmara de quarentena. Enquanto tentava articular alguns gritos de perdão, fracos e quase inaudíveis, ia desmaiando e perdendo as forças. A comissão julgadora, o capitão K. e o agente Daniel Aby assistiam a tudo através do vidro, quando um gás de cor amarelada atingiu o corpo já inerte de James Skull, que respirou pela última vez deitado no chão próximo ao vidro.
Um pouco mais tarde, Aby e K. conversam em seu gabinete. Acendendo um cigarro com o palito de fósforo, o capitão filosofa, observando o horizonte pela janela:
– ‘Fatos da vida. Skull sabia que retornar significaria o fim, e mesmo assim tentou. Ocultando-se por trás do temor, ainda presente em certos segmentos, da existência de um suposto vírus altamente agressivo ao ser humano, buscava uma falha na segurança para que pudesse escapar, ou até mesmo um extraordinário perdão do parlamento. Nem um, nem o outro’. Voltou-se para o agente, que o observava sentado numa cadeira de couro em frente a escrivaninha e sentou-se também, em sua própria poltrona atrás da mesa, soltando fumaça pela boca e concluindo: ‘Enfim… Aí estão as stare decisis’.
Um pouco constrangido, pensativo, vestindo um blazer com o brasão parlamentar, Daniel Aby perguntou, debaixo de seus cabelos escuros escorridos:
– ‘A possibilidade de ser um espião oriental foi verificada, senhor?’, disse, ajeitando os óculos para miopia com o dedo indicativo.
– ‘Sim, fizemos todos os testes biológicos e técnicos. Seu chip subcutâneo também deu positivo para exilado. Nenhuma chance de ser um amarelo maldito’, respondeu K., amedrontador em seu uniforme preto.
– ‘O conceito pré-85 de liberty, que agregava o sentido de transgressão da jurisprudência, ainda fascina muitos dissidentes. Talvez Skull tenha se apegado a isso.’, ponderou Daniel Aby, melancólico. ‘De qualquer modo, certamente, é um caso curioso, capitão. Não há absolutamente nada de errado na colônia. E, estranhamente, Skull achou que poderia recuperar a cidadania com essa história, não é mesmo?’. Olhou em volta, pensando enquanto o capitão fumava. Depois de algum tempo, disse, observando aleatoriamente os retratos da família de K. em cima de sua mesa: ‘O senhor não considerou a possibilidade de James Skull ter enlouquecido? Talvez a fiebre antártica de fato exista… Não como um vírus letal, mas quem sabe como uma espécie de esquizofrenia incontrolável, um estreitamento de raciocínio… ou até mesmo uma espécie de sonambulismo ultra-realista, ainda desconhecido?’
Com o aspecto grave e irônico ao mesmo tempo, um sorriso cínico no canto da boca, apagando o cigarro no cinzeiro, o capitão K. respondeu, vagarosamente:
– ‘Aby… Você é um agente politicheskiy novo. Quantos anos você tem? Vinte e cinco? Não? Vinte e seis. Ótimo. Bem, Aby, eu sou médico e militar há trinta e cinco anos. Não que eu queira me colocar numa posição de superioridade, eu nem poderia no contexto de freedom of speech vigente, não me entenda mal. Mas posso falar com um pouco mais de experiência. Acredite quando digo que isso não passa de uma lenda. Já teríamos sido afetados há muito tempo se algo assim viesse à tona. E hoje, você deve saber, estamos um passo à frente de praticamente qualquer doença’.
Aby não respondeu nada, mas balançava a cabeça afirmativamente, olhando com atenção as últimas névoas que subiam do cinzeiro do capitão. Em sua mente, vários pensamentos contraditórios se entrelaçavam, parecendo formar um novo tipo de conceito metafísico, ainda sem nome. Uma espécie de zumbido, como o de uma mosca, passeava por seus ouvidos, ia e voltava, entrava em seu cérebro, fazia mil curvas, e saía novamente. Imaginou a cabeça de K. subitamente tomando outro contorno, crescendo, colorindo-se de múltiplas texturas…
Lilás, branco…
Zummmm…
– ‘Aby!’
Acordado pelo grito sinuoso do capitão, Aby pediu licença, levantou de sua cadeira e retirou-se do gabinete. O capitão K., intrigado, permaneceu sentado, olhando para o novo agente do parlamento como se estivesse observando um quadro surrealista. Não conseguia compreender sua reação intempestiva e desproporcional a um assunto tão banal, a um tema que deveria ser corriqueiro para qualquer apparatchik, mesmo iniciante.
O dia e as horas foram passando, lentamente. Em seu gabinete, K. despachava assuntos políticos e militares diversos, manuseava papéis, recebia visitas protocolares e, nos intervalos, conversava ao telefone com sua mulher que vivia numa das ciudades da Liga, no continente, sobre amenidades domésticas e frivolidades próprias de um relacionamento decadente, consumido pela inércia dos filhos e netos. Ao final do dia, foi absorvido por um programa qualquer, previamente gravado em seu videocassete; descansou em sua poltrona e adormeceu, de pijama.
Meia-noite. Um silêncio sepulcral toma conta do gabinete do médico. Podemos ouvir claramente os ‘tic-tacs’ do relógio de parede, como os sinos de uma catedral gótica convocando para a revelação do mistério. Subitamente, K. é acordado pelo aviso sonoro da porta de seu gabinete.
Zummmm!
K. levanta-se, assustado. Confere as horas. Veste um roupão negro e vai até a passagem de chumbo.
– ‘Quem está, aí?’, ele pergunta, irritado. Alguns segundos se passam, sem resposta. Até que o capitão resolve abrir.
– ‘Aby! Mas que diabos?’, exclama, surpreendido com o que vê.
Daniel entra no gabinete, visivelmente alterado. Está sem os óculos, vestindo apenas uma calça civil, sem camisa, com os cabelos raspados.
– ‘É meia-noite, filho! Precisa de algo?’, insiste K.
– ‘Meu nome é Skull, senhor. James Skull. Exilado. Nível 25, setor cinza’, disse Aby, caminhando em círculos, olhando para o chão.
– ‘Que conversa é essa, Aby? Explique-se! Imediatamente!’, exaltou-se o capitão, pensando na falta de sorte que tivera ao receber um maldito ébrio no meio da noite.
– ‘Skull! Meu nome é Skull! Você precisa me ouvir! Você está na Antártida, na colônia penal. É um proscrito, como eu. Estamos cumprindo pena de banimento juntos!’. Aby parou e ficou olhando para o capitão, dentro de seus olhos.
– ‘Oras, francamente, Aby… Você está fora de si, ainda não dormiu, precisa de descanso, urgentemente’. K. adquiriu um semblante desapontado; foi até sua escrivaninha e procurou por sua carteira de cigarros El Tsarkaya. Encostou-se na mesa enquanto acendia um destes com o fósforo. Continuou, agora mais irritado pelos próprios pensamentos, dizendo:
– ‘Você acha que pode vir aqui, sem qualquer aviso, na hora que entende, do jeito que bem entende? Baseado em que jurisprudência? Esse tipo de conduta nunca foi mencionado nas doutrinas de Ray Velásquez sobre o glasnost way. Não me diga que você está pretendendo criar um novo precedente? O parlamento é, até onde vai meu modesto conhecimento, órgão privativo para a criação de uma nova súmula. E, se for essa sua intenção, há um procedimento padrão, o qual você está transgredindo’. K. buscava as palavras, olhando para o ventilador de teto e gesticulando com os braços, com o cigarro em uma das mãos. ‘É isso que você quer? Transgredir, em vez de questionar dentro das normas? O que você busca, afinal, agente Daniel Aby?’. Parou de movimentar os braços, olhou para Aby e disse, enquanto percebia pequenos pontos brilhantes ao seu redor, como se estivesse tonto, ou prestes a desmaiar:
– ‘Quem é você, agente? Você tem autorização parlamentar para transgredir?’
– ‘K.! Você é meu companheiro de exílio aqui na colônia! Recomponha-se! A Antártida inteira corre perigo! O vírus está se espalhando, devorando nossos irmãos por dentro, tomando seus corpos, transformando-os em aliens letais!’, gritou Aby, agarrando os braços do capitão.
– ‘Já chega! Fora daqui!’, respondeu o médico militar, no mesmo tom, empurrando o agente civil para a porta.
– ‘Você mexeu em minhas coisas, K.? Você deve estar enlouquecendo! Você está alucinado, fora de si, está louco!’, disse Aby, enquanto era levado à força para fora do gabinete.
– ‘Não! Você é que está louco! Reconheço um à distância!’, berrou o capitão, batendo a porta de chumbo com força.
K., exausto, voltou para sua poltrona e sentou, pesadamente. Pegou o cigarro que havia deixado cair no chão durante o tumulto e apagou-o no cinzeiro. Fechou os olhos, passou a mão sobre sua calvície, sobre seu rosto cansado e suado. Quase um minuto se passou, até que o zumbido voltasse, acompanhado de mais pontos coloridos e brilhantes.
Zummmm!
– ‘Vá à merda, Aby!’, gritou o capitão K., do fundo de seu gabinete.
Neste instante, a porta foi arrrombada. Ele viu dois aliens armados entrarem lentamente. Eles vinham em sua direção.

Conto de autoria de Tiago Masuti

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