Aterrisando no Planeta dos Macacos de Pierre Boulle

Imagine um lugar na galáxia onde, após milhares e milhares de anos de evolução, as bestas alcançaram o domínio completo de seu planeta, conquistando todo o meio ambiente ao seu redor, destruindo o habitat das raças consideradas inferiores e escravizando outras espécies em antessalas do inferno montadas dentro de instituições acima de qualquer suspeita.

Um lugar onde as feras apresentam reflexo condicionado, repetindo sempre os mesmos rituais dadas as mesmas situações; onde os machos fazem a dança do acasalamento, as castas são destinadas sempre aos mesmos serviços, a autoridade não pode ser questionada e todos os hábitos – geração após geração – são macaqueados, imitados por seres sem alma, sem originalidade e autopromovidos ao posto de únicos portadores da razão e do espírito. Bem-vindo à Terra.

Porém, junto ao sistema solar da estrela Betelgeuse (uma das maiores da Via Láctea), existe o planeta Soror, igualmente dominado por uma raça dita superior: os macacos. Em Soror, encontramos três etnias dominantes de símios; os chimpanzés, destinados a trabalhos braçais; orangotangos, meros repetidores de fórmulas acadêmicas; e os gorilas, grandes financiadores que jamais colocam sua segurança em risco.

Em Soror, os combustíveis fósseis dão vida às máquinas; as caçadas nos bosques são o esporte predileto da nobreza econômica; as bolsas de valores estão cheias de símios, pulando uns sobre os outros, gesticulando como loucos; e as universidades conduzem pesquisas supostamente científicas com cobaias humanas, incapazes de falar ou protestar oralmente contra seu domínio.

Teriam os humanos regredido ao nível animal em Soror, deixando todo o seu legado intelectual aos macacos? Como os macacos chegaram até este ponto? Como evoluíram? E, o mais importante: como se tornaram tão semelhantes aos humanos terráqueos?

planeta-dos-macacos-capaA partir dessas premissas, o francês Pierre Boulle escreveu, em 1963, o excelente livro O Planeta dos Macacos, uma fábula repleta de imagens espelhadas da própria Terra, porém ambientadas em outro planeta e com seres muito similares aos encontrados por aqui. Apenas similares? O best-seller rendeu uma série de filmes para o cinema, sendo o mais famoso deles o primeiro, de 1968, com o grande ator Charlton Heston como protagonista e a belíssima cena final em destaque. Seguiram-se vários outros, entre eles o do cineasta Tim Burton (2001), que foi mais fiel à história original e também alcançou relativo prestígio. Pierre Boulle também havia escrito, em 1952, A Ponte do Rio Kwai, que deu origem a outro filme hollywoodiano de sucesso.

No livro de Boulle sobre os símios, um dos exercícios mentais mais interessantes de Ulysse Mérou, jornalista terráqueo, em sua odisseia ao planeta Soror, é a analogia antropológica de estranhar os hábitos naturais de seu planeta de origem e, de outro modo, familiarizar os hábitos tidos como estranhos dos macacos que encontrou no sistema de Betelgeuse. Afinal, seriam os humanos um pouco macacos? Ou, num sentido invertido de conto de fadas, os macacos de Soror não estariam fazendo muitas “humanices”? Nesta história, o melhor sentido pode ser lido da seguinte forma: Soror é a Terra; humanos simplesmente são macacos. As duas raças são idênticas. Dito de outro modo, os símios de lá são a metáfora perfeita da humanidade de cá.

Você pode ler essa fantástica viagem antropológica de Pierre Boulle aos confins do Planeta Terra em edição primorosa da Editora Aleph lançada em 2015.

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5 comentários sobre “Aterrisando no Planeta dos Macacos de Pierre Boulle

  1. Pingback: Por que você gostaria de ser amigo de Paul Giamatti? Impressões que não te contei antes sobre a vida e a carreira do Anti-Herói Americano em 3 atos e 13 filmes | Não me Livro desse Blog

  2. Lembro-me da primeira vez que o filme foi exibido no começo da década de 70. Tinha 6 ou 7 anos. Assisti com meu pai junto na TV. Fiquei várias noites sem dormir com medo de tudo aquilo se tornar verdade um dia. O primeiro e o segundo filmes com Charton Heston são uma obra prima do cinema. Pena que são pouco reprisados na TV a cabo. Imagino, após ler a resenha acima, que o livro seja daqueles que sua veloz leitura só terminará quando a última página chegar. Parabéns pela resenha!

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