Philip K. Dick e Eu

Philip K. Dick morreu em 2 de março de 1982, aos 53 anos de idade. Provavelmente um dos maiores escritores do séc. XX, em 17 de fevereiro daquele ano, logo após conceder uma entrevista, ligou para seu médico reclamando de falta de visão nos olhos, ao que foi então aconselhado a procurar uma clínica imediatamente. No dia seguinte, encontraram-no inconsciente sobre o chão do banheiro de sua casa. Levado ao hospital, alguns dias depois os médicos constataram que seu cérebro estava morto e desligaram os aparelhos que mantinham seu corpo vivo. Ele sofreu dois acidentes vasculares cerebrais.

pkd-09K. Dick considerava-se um filósofo que escrevia romances. Sua arte acabou rotulada na vala comum da ficção científica, embora possa ser melhor descrita como “ficção paranóica” ou “ficção filosófica”, porque seus temas pouco diziam respeito ao futuro e, antes disso, tratavam de dilemas como memória e experiência, o ser e a existência, humanidade e bestialidade, realidade e imaginação, sanidade e loucura, artificialidade e naturalidade, misticismo e devoção, Estado e indivíduo, drogas e redenção. Muito influenciado por Platão, Jung e pelo Livro das Mutações, seus textos giravam quase sempre em torno da idéia de que a realidade como tal não pode ser conhecida ou, antes disso, não pode ser acessada sem o filtro do sujeito e, portanto, toda realidade é uma espécie de mundo privado ou, em grego, idios kosmos – uma ilusão individual. Ele tentou alcançar a verdadeira realidade escondida por trás deste mundo de todas as formas: anfetaminas, suicídio, casamentos em série.

Philip costumava escrever sob a influência de remédios ou sob os desígnios do I-Ching que, segundo ele, foi o grande precursor do código binário, do qual tomou conhecimento em seu terceiro casamento, através de sua esposa Anne. Neste período ele deixou Berkeley, na Califórnia, para morar numa pequena cidade costeira chamada Point Reyes, em que ele exerceu o papel de padrasto de suas filhas e ajudava nas tarefas domésticas. Nesse período do início dos anos 1960, ele tentou em vão tornar-se um escritor mainstream; várias de suas obras foram devolvidas pelos editores desinteressados, inclusive Memórias de um artista de merda, em tradução livre, no qual o protagonista se queixa de ter que comprar absorventes íntimos para a esposa que o sustentava. Pura fantasia. Ou mania de perseguição, como em seu livro O Labirinto da Morte, no qual mortes inexplicáveis acontecem entre colonizadores de um planeta desconhecido; porém, sem que saibam, estão todos perdidos nos confins do espaço, apenas matando tempo antes de morrer.

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Por que ele não foi logo ao hospital naquela noite de 1982 permanece uma incógnita. É muito curioso que ele, que escreveu diversos textos sobre androides (como Androides sonham com ovelhas elétricas?), paranormalidade e quase morte (como no livro Ubik) tenha passado seus últimos dias vivo com um cérebro inconsciente e conectado a uma máquina. Jamais saberemos, mas talvez nesses poucos dias Dick tenha vivido eternamente, como um Deus. Talvez, na verdade, sua mente ainda esteja viva em seu pequeno mundo. No início dos anos 1970, ele alegou ter sofrido a influência de um raio divino de cor rosa, que o fazia acreditar que Deus estava tentando entrar em contato consigo. Não à toa, ele possuía um diário pessoal denominado “Exegese”. Segundo ele, muitos sábios foram considerados loucos em suas épocas, ironizados por psiquiatras e doutores da mente e, posteriormente, elevados a categorias de profetas ou santos, como o bíblico Elias. Teriam esses profetas acessado a verdadeira realidade, a qual só podia ser experimentada nos anos 60 através de LSD? Alguns de seus livros foram muito bem-sucedidos ao representar a fantasia do ego e do tempo, como Valis – em que os personagens acreditam estarem sendo vigiados por um satélite enviado por uma raça divina – ou Os Três Estigmas de Palmer Eldricht, onde drogas psicotrópicas como Can-D e Chew-Z tornam o mundo real apenas uma extensão do cérebro de Deus. E, neste caso, todos podem ser Deus, até mesmo pessoas mal intencionadas.

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Porém, foi com O Homem do Castelo Alto que Dick tornou-se conhecido do grande público, tendo vencido o Prêmio Hugo de fantasia e ficção científica como o melhor romance do ano de 1962. Nele, K. Dick não conta a história de um futuro distópico, mas de um passado alternativo, em que Japão e Alemanha teriam vencido a 2a Guerra Mundial e repartido os Estados Unidos entre si. Nesse mundo existiria um livro banido, porém muito famoso – O gafanhoto torna-se pesado – supostamente lançado por um homem chamado Hawthorne Abendsen, que utiliza o I-Ching para orientar sua escrita e vive num castelo nas montanhas rochosas. Neste livro, os Estados Unidos e a Rússia teriam vencido a guerra, e esta seria a verdadeira realidade ignorada por todos. Incentivado por Anne, Dick escreveu todo o livro isolado numa cabana em Point Reyes, sob intensa orientação do Livro das Mutações, e desejou muitas vezes atravessar o espelho e conversar pessoalmente com Abendsen.

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Dick e Anne

Antes disso, em seu segundo casamento com Kleo Apostolides, Dick e sua esposa eram constantemente visitados por um agente do FBI em sua casa em Berkeley, em plena caça às bruxas. O agente costumava fazer muitas perguntas a Dick a respeito das orientações e atividades políticas do casal. Dick era apenas um libertário; de fato, Dick e o agente federal acabaram tornando-se colegas e, durante o tempo em que passavam juntos, o servidor público ensinava Dick a dirigir um automóvel, enquanto Dick virava o agente de ponta-cabeça com perguntas capciosas como: você sabe que os verdadeiros comunistas não são do partido, não sabe? Por volta dessa mesma época, certa vez ele precisou ir ao banheiro e, ao tentar puxar uma cordinha que acendia a luz, não encontrou nada a não ser um interruptor. Tal fato marcou sua experiência, pelo qual refletiu por muitos anos. Ficou com a sensação de que algo ou alguém havia subitamente mudado o mundo ao seu redor, pois lembrava-se nitidamente da presença daquela cordinha. Então era o mundo, afinal, uma inacreditável e gigantesca pegadinha?

Dick conheceu Kleo ainda muito jovem, no início dos anos 1950, enquanto trabalhava como vendedor numa loja de discos e consertos de aparelhos como vitrolas e televisores – situação parecida com o tema de um de seus primeiros livros, Vozes da Rua, publicado somente em 2007. Philip foi um garoto do ensino médio que – além de supor que sua professora de geometria fosse um ser não vivo com um cérebro mecânico – ouvia Mahler e não conhecia apenas a 5a sinfonia, mas todas aquelas menos famosas; um leitor compulsivo de Joyce, Proust, Hannah Arendt; este garoto viria a se tornar um erudito que datilografava sem descanso, um proletário das palavras, inventando histórias e trabalhando de 10 a 12 horas diárias dopado com anfetaminas, sendo capaz de escrever um livro inteiro em poucas semanas. Não era um diletante, pois fazia isto para tentar sustentar a família, no que tinha pouco sucesso e sentia-se muito cobrado, mesmo após vencer o Hugo.

Sua mãe, pkd01apesar de ter incentivado sua erudição, o colocou para fora de casa, temendo que fosse homossexual ou algo parecido. Ele temia que ela jogasse no lixo sua coleção de revistas de ficção científica, entre elas a Astouding Stories. Na verdade, Phil conseguia circular em várias comunidades diferentes, porém tornando-se proscrito em todas elas. Chegou a cursar algumas disciplinas na Universidade de Berkeley, mas a carreira acadêmica não era para si. Temendo envelhecer como o excêntrico vendedor de discos da esquina, que cantava óperas em alemão e nunca havia sido formalmente educado, Dick decidiu apostar todas as fichas na literatura, sem plano B, enfrentando todas as consequências dessa escolha enquanto era objeto de curiosidade entre os vizinhos do subúrbio, pois não saía de manhã para trabalhar nem cuidava da casa nos fins-de-semana, como todos os homens sérios.

pkd-04Em entrevista coletiva no final dos anos 1970, K. Dick alegou que a realidade em que vivemos é uma ilusão criada por computador. Provavelmente um precursor das idéias que inspirariam anos mais tarde o roteiro de filmes como Matrix e O Show de Truman, ou os estudos do filósofo Michael Talbot sobre a hipótese do universo holográfico, Philip foi, na realidade, muito posterior aos filósofos gnósticos da Idade Média, que afirmavam que este mundo era apenas a criação ilusória de um Deus louco, enquanto o verdadeiro mundo, criado pelo Deus são, deveria ser alcançado pelo suicídio. No início da mesma década, enquanto passava um tempo em Vancouver para uma convenção local de ficção científica, logo após o quarto divórcio, Dick apaixonou-se por uma garota canadense e ficou hospedado na casa de um crítico de cinema local. Acabou sendo expulso da casa do novo amigo e o relacionamento relâmpago fracassou, o que o levou a tomar uma alta dose de sedativos. Sobrevivendo a esta tentativa de suicídio, Dick fez um tratamento rápido numa clínica de Vancouver e retornou à Califórnia.

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Apesar da fama alcançada, Dick nunca ganhou o suficiente para viver com tranquilidade ou abundância. Outro grande autor de ficção científica, Robert Heinlein, sem nunca ter conhecido Philip pessoalmente, emprestou-lhe dinheiro para se tratar enquanto estivera doente e Dick o considerava um dos poucos cavalheiros neste mundo. Após a morte de Philip K. Dick (muito possivelmente causada pelo uso abusivo de remédios) seu pai – divorciado de sua mãe desde que Dick era criança – enterrou o filho no túmulo sob a mesma lápide de sua irmã gêmea, Jane Dick, falecida com apenas 1 mês de idade, a qual muitas vezes Dick imaginava estar de fato viva e ele, ao contrário, morto. Ele deixou três filhos.

Essas e outras preciosas informações sobre a vida e a obra de Philip K. Dick podem ser encontradas no maravilhoso livro Eu estou vivo e vocês estão mortos, escrito em 1993 pelo francês Emmanuel Carrère e lançado em português em 2016 pela Editora Aleph.

PS: Eu nasci em 2 de julho de 1982 e sinto que, de alguma forma, Philip K. Dick foi meu melhor amigo.

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