Henry Darger nos Reinos do Irreal

Muitas vezes a História da humanidade, embora já muito explorada, ainda guarda segredos e passagens desconcertantes, tal qual pedra preciosa colhida no leito de um rio caudaloso. E o próprio ser humano, como contador de histórias que é, tem em sua mente a gema para universos completamente novos, onde opressores e oprimidos habitam vilarejos, atravessam pontes de pedra, celebram a vida e fazem a guerra em vales da morte e montanhas mágicas. E tantas outras vezes esse universos que habitam a mente de um artista são povoados por uma constelação de seres fantásticos.

Poderíamos falar de J. R. R. Tolkien e sua saga “Senhor dos Anéis”; de Frank Herbert e seu planeta “Duna”; de J. K. Rowlings e seu feiticeiro “Harry Potter”; de Terry Pratchett e sua “Cor da Magia” ou até mesmo de George R. R. Martin e sua “Guerra dos Tronos”. Porém existe na História um artista singular, muito pouco conhecido ou estudado mundo afora, que também, à seu modo, foi um espetacular e original arquiteto de mundos, sem receber o devido reconhecimento em vida. E não poderia ser diferente, afinal o norte-americano Henry Darger viveu praticamente recluso num apartamento alugado em Chicago por cerca de 40 anos até sua morte, em 1973. Mas não sem deixar como notável legado para a raça humana uma das pérolas mais raras já encontradas: “Nos Reinos do Irreal”, alegadamente a mais longa obra de literatura de todos os tempos, com mais de 15 mil páginas e centenas de ilustrações.

Esse romance bizarro tem lugar num grande planeta desconhecido, no qual a Terra gira ao redor como uma lua, e narra as desventuras sofridas por uma população de crianças que são escravizadas pelo ditador maléfico John Manley e seu exército Glandelínio. A guerra entre as crianças e os glandelínios tem início depois que Annie Aronburg, a líder da primeira rebelião das crianças escravas, é assassinada. Para ajudá-las em sua luta contra as atrocidades e horrores, temos as sete princesas-irmãs, chamadas de Garotas Vivian, da nação cristã de Abbieannia, além de uma espécie alada gigante chamada de Blengigomeneans, que possui chifres curvados e às vezes toma a forma de crianças humanas. Para completar a obra, o autor Henry Darger fez um excelente trabalho estético na composição de colagens e gravuras retiradas de jornais e revistas pintadas em aquarela, onde cenas oníricas de batalhas entre anjos e demônios tomam forma.

henry-darger

As inquietações artísticas de Darger tiveram início ainda na passagem da infância para a adolescência, no início do séc. XX, quando, na ausência dos pais, foi entregue à uma instituição para “menores débeis-mentais”, um tipo de entidade muito comum à época. Lá ele teria sofrido muitos abusos, entre eles, ser acusado de “auto-molestação”; passou supostamente a desmentir os adultos e a proferir “palavrões” e foi então compelido a realizar trabalhos forçados com punições severas. Em 1908, aos 16 anos, ele conseguiu escapar daquela instituição, refugiando-se em Chicago com sua madrinha. Neste período ele ficou emocionalmente marcado pelas recorrentes notícias nos jornais acerca do assassinato de uma garota de 5 anos chamada Elsie Paroubek. Após isto, Henry encontrou emprego como zelador num Hospital Católico e, apesar de ir às missas todos os dias e colecionar velhos jornais e revistas, passou a maior parte de sua vida solitário.

A não ser pelo período de amizade que teve com William Schloeder, com o qual pretendeu fundar uma associação de proteção à crianças abandonadas, o brilhante escritor e artista plástico praticamente não teve educação formal ou contato com qualquer pessoa, muito menos do meio artístico. De forma que sua imensa obra de arte, que foi complementada por outros livros como “Casa Louca” e “História da Minha Vida”, permaneceu absolutamente desconhecida do público até sua morte, quando foi descoberta intacta pelos seus senhorios no apartamento em que ele vivera e então revelada ao mundo. Hoje Henry Darger é reverenciado em certos meios como um expoente da chamada “arte bruta”, ou seja, uma arte não-lapidada ou não-sujeita aos cânones formais da literatura ou da pintura, no caso. Suas obras podem ser apreciadas em museus como o Museu de Arte Moderna e o Museu de Arte Folclórica Americana, ambos em Nova Iorque, além do Instituto de Arte e do Museu de Arte Contemporânea de Chicago. Além disso, sua influência hoje se faz presente também na cultura popular, com referências à sua obra em documentários, poemas, videogames e romances gráficos.

A vida de Henry Darger corrobora a idéia de que, muitas vezes, para tornar-se um grande artista ou filósofo, que seja original e se torne objeto de estudo e admiração ao longo dos séculos, é preciso quebrar com uma série de comportamentos “normais” da sociedade de sua época. Apesar de não ter buscado a fama e ter se concentrado totalmente em sua arte, vivendo na obscuridade e reclusão completa até a morte, Darger conseguiu legar ao mundo um brilho inimitável de sensibilidade e imaginação, transformando o lixo que encontrou nas ruas ou em sua própria vida em verdadeira obra-prima de desespero e redenção. Ele, no fundo, sabia que um espírito livre nunca morre. A História da humanidade continua nos revelando formidáveis segredos sombrios, porém de inspiração luminosa, como esta de Henry Darger e seu mundo repleto de apocalipse angelical – como é a vida.

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